Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Dois Polos Negativos.

“Se existem almas gêmeas, como dizem, pessoas que se completam de maneira a somar um só, vocês são o oposto absoluto disso.”

E foi assim que  Mana resumiu tudo numa frase enquanto eu assoava o nariz e enxugava as lágrimas. Ela ficou tentando me consolar me dizendo que eu não sou uma criatura repulsiva como eu fico repetindo entre um soluço e outro.  Eu culpo as fotografias, sempre as putas das fotografias com que eu esbarro mesmo sem procurar como se a casualidade me quisesse esfregar na cara o tamanho da minha estupidez nesses momentos que eu fraquejo e quase que perdoo.

Olho os dois na foto. Estão queimados de sol, com os dentes a mostra e se beijam com aquela entrega de quem se gosta e bebeu um pouco além.  E depois eu penso nas poucas e tristes fotos onde aparecemos lado a lado – nunca juntos, sempre pálidos e contritos.

Eu olho os dois na foto e choro porque me sinto derrotada. E nem é ciúme, eu não o quero mais, mesmo. Mas eu penso no tempo perdido e tenho inveja de todas elas que conseguiram extrair dele o que ele tem de doce e de bom. Que tiveram o que eu nunca consegui.  E fico pensando se um dia esse gosto amargo perpetuado em minha boca vai desaparecer. Se os vestígios de todas as vezes que ele me beijou fingindo querer beijo um dia vão desgrudar da minha língua. Se todas as mentiras românticas que ele me contou um dia virarão uma risadinha infantil de quem já não liga.

Pergunto-me se todo esse mal que a gente se fez por tanto tempo um dia vai se diluir e sair na minha urina. Se eu vou me ver no espelho de novo aquela criatura incrível que eu era quando ele me conheceu. Ou se eu vou passar o resto dos dias fingindo pra mim, para ele e para todo mundo que eu sou forte e que eu estou muito bem.

(Bem de cu é rola. O meu queixo fica levantando, eu mantenho o passo firme. Mas por dentro o que existe é um desabamento)

Fecho as fotos – as deles e a nossas.  Respiro fundo, maldigo meus olhos inchados e tomo meio Rivotril.

Deixo os unguentos a cargo da rotina, ela amanhã há de me segurar nos braços: a corrida, os trabalhos, as coisas que importam. E eu vou mais uma vez encontrar uma maneira de escorar as estruturas e conter as encostas. De  liberar todas as vias para que a vida de todo dia siga seu fluxo sem retenções, antes da hora do rush começar.

© 2009, Ana Mangeon. All rights reserved.

4 comments

4 Comments so far

  1. Cyber Optik January 15th, 2009 12:24 pm

    Use photoshop nas fotos que te lembrem coisas ruins e tire novas fotos, quem sabe assim vc poderá seguir em frente e começar uma carreira fotográfica :)

    BjuZ!!!

  2. Maria Helena January 15th, 2009 12:59 pm

    Ah, Ana! A gente sabe que o tempo cura, mas enquanto isso não acontece, a dor é desesperadora. Você sempre me faz chorar…

  3. Moca January 15th, 2009 8:14 pm

    uma hora passa. uma hora sempre passa.

  4. b January 23rd, 2009 11:08 am

    Moça,
    Hora de sentir dor, é hora de sentir dor.
    Até o momento em que isso vai te irritar tanto, que você, de repente, vai rechaçar essa experiência dolorosa , tipo de saco cheio.
    Dizer que acontece com todo mundo, é nada, pois a dor é tua.
    Não tenho palpites a não ser, tomar o floral Rescue, para choques, dores em geral.
    Ou usar o óleo de lavanda, ou perfume de lavanda, que é o aroma da mãe terra, da mãe natureza.
    Tá pensando que tô de bobagem? Experimenta.

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