Archive for April, 2009

Guardanapos

Essa é a magia das coisas boas: sua volatilidade a nos fragilizar. Tudo é tão perecível. Tatear é o risco que se evapore no calor da espera. Mergulhar a possibilidade da indigestão.

Envolver-nos será sempre essa mesa posta onde são servidos pratos agridoces e mezzo-amaros, receitas que sorridentes provamos mesmo quando sabemos que nunca saciarão a nossa fome.

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Ponte Aérea

Anunciaram que o vôo estava atrasado cinco minutos e foi por isso que eu abri o livro que a My me emprestou. Eu tinha saído do trabalho um pouco mais tarde e estava correndo para pegar o ônibus quando esbarrei com eles tomando uma cerveja no mesmo botequim de sempre. Ela tirou o livro da bolsa e me deu, assim, do nada. Ana, leia! E eu prometi que leria em 10 dias. Isso já faz uns dois meses.

Li as duas primeiras páginas que falavam de bronhas como se fossem farras dionisíacas. Me deu preguiça. Esses escritos no estilo “memórias da cabeça do meu pau” sempre me bodeiam um pouco. A verdade é que não lido bem com esses brados da testosterona – noventa por cento do tempo eu sei como os caras pensam e cem por cento do mesmo tempo eu torço para estar enganada. Na boa, mulher quer putaria apenas quando está nadando em hormônios. No mais, qualquer migalha de poesia nos basta.

Continuei lendo, mais para descobrir por que e como ela me viu naquelas palavras que por interesse na história – que história?

Chamaram para o embarque. Eu ocupei o último lugar na fila, depois um assento no corredor. As três mulheres na fila da frente me olhavam com uma certa insistência. Sorri. Patrícia? Não, Ana. Oh! Desculpe. E elas se acotovelaram e conversaram qualquer coisa entre sussurros e risinhos. O rapaz da fila do lado também olhava para mim. Talvez também me confundisse com alguém. Coloquei os óculos e reabri o livro.

Mylena tinha razão, as palavras desse cara fluem fácil. Por isso eu continuei lendo cada uma das confissões punhetescas daqueles personagens. E o cara continuava me olhando. Por algumas vezes tentei imaginar se não estava fazendo nenhuma cara sacana, sabe como é, imaginação é foda. O livro falava de Paris, e putz, se o Sena falasse…

Primeiro veio aquele friozinho na barriga, logo depois o piloto avisou que estávamos nos preparando para pousar e que a temperatura em São Paulo era de vinte e quatro graus. Fechei o livro pensando no primeiro cara que eu beijei na vida. Pensei em Eduardo porque a uma certa altura, o personagem do livro ficou com a cara dele. Deve ter sido por causa das nossas últimas conversas pelo MSN. A gente se fala de vez em quando. Às vezes a gente troca umas confissões octogenárias de natureza quase sexual. Nada muito sexy: tudo com aquele tom de infográfico. O fato é que eu gosto de papear com esses caras que fazem piada sobre os desígnios despóticos do próprio pau.

A luz da cabine diminuiu. Lá em baixo a Cidade parecia sem fim. O mané na fila do lado continuava me olhando sem a menor cerimônia, um saco. Colei o rosto na janelinha gélida e concluí que as ruas da Cidade realmente não fazem o menor sentido. Pensei no Breno, em Londres. Me imaginei pousando em Nova York no outono. Do alto, São Paulo é uma composição caótica. Eu sou a Cidade e o caos que habito funciona. São Paulo funciona.

Um aperto na boca do estômago e eu podia reconhecer as quadras de Moema. Do céu, a Cidade parecia um mar doirado de purpurina. Eu nunca resisto. Mergulho.

O cara continuava me olhando. Eu queria mandá-lo encarar a puta que o pariu, mas fui contida pela voz afetada do comandante:

-Tripulação, abrir portas.

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Vinícius.

Vinícius tinha nome de poeta e comia poesia. Mas nunca cospia. Ficava ali digerindo os versos alheios e desvendando as mais variadas figuras de linguagem escondidas numa infinidade de rimas.  No fundo, Vinícius era uma espécie de boi lírico; ele ruminava, ruminava, ruminava, decorava o gosto dos versos e depois engolia sem a chance de descrever o sabor para ninguém. Às vezes acontece disso de saber, entender e vislumbrar uma coisa e ainda assim,   ser completamente incapaz de executá-la com um mínimo de destreza.

E era só por isso que eu guardava no bolso sem ler todos os papeizinhos que ele me entregava por debaixo da mesa do refeitório durante o café da manhã: não queria, tomada de aflição, ver-me retificar seus versinhos de pé-quebrado e dar ao seu sentimento pernas mecânicas. A verdade é que era delicado ver aquele sentimento todo escorrer coxo pela esferográfica verde e se transformar num discurso atabalhoado, tedioso e pueril.

Aconteceu que um dia Vinícius não me passou nenhum versinho por debaixo da mesa. Em vez disso, ficou ali calado, respirando profundamente aquele ar viciado, empestado de manteiga e café fraco. Ficou ali me olhando uns longos minutos até que aproximando muito seus lábios de minha orelha esquerda, sussurrou:

-Melina, a tristeza não tem fim.

Então, desliguei-me do ir e vir das formigas no açucareiro e olhando bem fundo nos olhos segredei:

-Mas tem longas pausas.

E nesse dia, Vinícius compôs uma melodia belíssima que ninguém jamais conseguiu letrar.

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Fluido

São muitos os trânsitos e infinitos os sumidouros. Fica impossível negar que já chego de passagem. Dizer olá é sempre até mais ver. Minha natureza se traduz nessa necessidade de movimento. Eu fluo.

Por isso tanta ansiedade em lhe dizer para se jogar. Ao menor ragateio você pode perder minha passagem. Um atraso e eu já fui. Não faço por mal: eu simplesmente não controlo o fluxo. Por vezes, ele é o gordo volume de uma cabeceira inundada. Outras a transparência de um córrego finíssimo e frenético. Não importa; o movimento é sempre veloz e não permite distrações.

Eu não quero mais a canção melancólica dos desencontros. Eu quero parar. Eu quero um dique, uma barragem.

Eu quero empoçar n’algum lugar e ser todos os dias a amorosa fonte para um coração que sinta sempre muita sede.

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