Ponte Aérea

Anunciaram que o vôo estava atrasado cinco minutos e foi por isso que eu abri o livro que a My me emprestou. Eu tinha saído do trabalho um pouco mais tarde e estava correndo para pegar o ônibus quando esbarrei com eles tomando uma cerveja no mesmo botequim de sempre. Ela tirou o livro da bolsa e me deu, assim, do nada. Ana, leia! E eu prometi que leria em 10 dias. Isso já faz uns dois meses.

Li as duas primeiras páginas que falavam de bronhas como se fossem farras dionisíacas. Me deu preguiça. Esses escritos no estilo “memórias da cabeça do meu pau” sempre me bodeiam um pouco. A verdade é que não lido bem com esses brados da testosterona – noventa por cento do tempo eu sei como os caras pensam e cem por cento do mesmo tempo eu torço para estar enganada. Na boa, mulher quer putaria apenas quando está nadando em hormônios. No mais, qualquer migalha de poesia nos basta.

Continuei lendo, mais para descobrir por que e como ela me viu naquelas palavras que por interesse na história – que história?

Chamaram para o embarque. Eu ocupei o último lugar na fila, depois um assento no corredor. As três mulheres na fila da frente me olhavam com uma certa insistência. Sorri. Patrícia? Não, Ana. Oh! Desculpe. E elas se acotovelaram e conversaram qualquer coisa entre sussurros e risinhos. O rapaz da fila do lado também olhava para mim. Talvez também me confundisse com alguém. Coloquei os óculos e reabri o livro.

Mylena tinha razão, as palavras desse cara fluem fácil. Por isso eu continuei lendo cada uma das confissões punhetescas daqueles personagens. E o cara continuava me olhando. Por algumas vezes tentei imaginar se não estava fazendo nenhuma cara sacana, sabe como é, imaginação é foda. O livro falava de Paris, e putz, se o Sena falasse…

Primeiro veio aquele friozinho na barriga, logo depois o piloto avisou que estávamos nos preparando para pousar e que a temperatura em São Paulo era de vinte e quatro graus. Fechei o livro pensando no primeiro cara que eu beijei na vida. Pensei em Eduardo porque a uma certa altura, o personagem do livro ficou com a cara dele. Deve ter sido por causa das nossas últimas conversas pelo MSN. A gente se fala de vez em quando. Às vezes a gente troca umas confissões octogenárias de natureza quase sexual. Nada muito sexy: tudo com aquele tom de infográfico. O fato é que eu gosto de papear com esses caras que fazem piada sobre os desígnios despóticos do próprio pau.

A luz da cabine diminuiu. Lá em baixo a Cidade parecia sem fim. O mané na fila do lado continuava me olhando sem a menor cerimônia, um saco. Colei o rosto na janelinha gélida e concluí que as ruas da Cidade realmente não fazem o menor sentido. Pensei no Breno, em Londres. Me imaginei pousando em Nova York no outono. Do alto, São Paulo é uma composição caótica. Eu sou a Cidade e o caos que habito funciona. São Paulo funciona.

Um aperto na boca do estômago e eu podia reconhecer as quadras de Moema. Do céu, a Cidade parecia um mar doirado de purpurina. Eu nunca resisto. Mergulho.

O cara continuava me olhando. Eu queria mandá-lo encarar a puta que o pariu, mas fui contida pela voz afetada do comandante:

-Tripulação, abrir portas.

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2 Comments so far

  1. paredro April 22nd, 2009 12:55 pm

    continua… ?

    Saudades dessas tuas cidades-charles-dickens.

    Beijo, Ana.

  2. Anna April 22nd, 2009 11:26 pm

    Que livro é esse? Tô precisando de algum cara me encarando… hahaha

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