Archive for May, 2009

Versinho Triste

De meu encontro com todos eles
tiro sempre a mesma lição:
Todo sangue que ferve nas veias hoje
amanhã vira lágrima em erupção.

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De manhã

Acordei semi-desmemoriada, nua e sozinha em minha cama. Diferente do usual, estar sozinha era um alívio e tornava pequenas as chances de eu ter feito algo de que fosse me arrepender. Conheço bem  o que acontece nessas noites de álcool e declarações de amor que não mudam nada. Já cedi outras vezes à sede insana de inventar uma realidade nova, instantânea. Não. A vontade é sempre a de acreditar em qualquer mentira novidadeira, arrancar com os dentes pedaços de um corpo de sabor novo e me sentir livre, ainda que momentaneamente. De flagelar outras carnes buscando um gosto diferente que me encante, sempre tentando me vingar ou encontrar alguma redenção.

Respirei profundamente e o ar do meu quarto parecia imaculado. Não cheirava a sexo e o álcool parecia já ter evaporado apesar da janela lacrada pelo pesado black-out cor de prata. Não havia vestígios de fumaça, nem cinzas no chão. Olhei minhas unhas da mão uma por uma e estavam intactas. Também não tinha lama entre meus dedos dos meus pés. Definitivamente, eu havia entrado em  casa calçada. Fui investigando os cômodos do apartamento procurando algo que me desse uma pista de como eu havia chegado. Torcendo para não encontrar nada.

E nada que não fosse usual, havia. A gata me acompanhava de longe, encarando minha agitação com as pupilas dilatadas e bigodes caídos. Olhava-me com olhar pedinte típico dos gatos  que morrem de pena de seus donos. Observava-me como quem finge pedir conforto com a intenção secreta de dar conforto. Tentei recordar se eu tinha lhe dado colo ao entrar trôpega no apartamento. Talvez eu lhe tivesse chutado ou a esmagado entre meus braços ébrios até quase lhe exaurir o ar. Talvez eu tivesse apenas despido a roupa toda no meio da sala. Rasgado a malha da camiseta. Arrancado os botões da calça. Ou talvez tivesse apenas ignorado sua presença felina e me enfiado embaixo do edredom. Eu não sei. Não lembro. Eu não vou lembrar.

Pensei que a penumbra das persianas baixas compusesse uma atmosfera melancólica, mas é possível que eu mesma tivesse criado o clima. Ao lado da TV, junto ao violão mudo, meus sapatos repousavam de solas para cima  contando que não quebrei os saltos, mas caminhei bastante. No banheiro, os discos de algodão falavam que apesar da tontura, eu lembrei de remover a maquiagem.  O celular também guardava seus segredos:  pessoas ligaram e eu não atendi. Eu não reconhecia metade daqueles números. Havia mensagens na caixa postal. Eu liguei para pessoas que também não me atenderam.

Fui até a cozinha, joguei a roupa fedida de muito cigarro na máquina de lavar. Tomei um litro Coca-Cola. Fiquei olhando para a panela cheia d’água na pia há 4 dias criando fungos, e mais uma vez não me animei de lavá-la.  Eu deveria estar de ressaca, mas não estava. Nada de dor de cabeça, nenhum enjôo. Santo Engov. Santo Engov…

Por alguma razão, eu tinha medo de levantar as persianas. Na verdade não era bem medo, era só a certeza de ter anoitecido por dentro e não querer amanhecer. Não existia nenhuma razão para amanhecer. Era a certeza de ter acordado para tudo e preferir ainda estar dormindo. E continuar sonhando. E continuar sonhando até quando? A graça do sonho reside no não se saber que é sonho, e eu sei. E fazer o que, agora? Continuar andando nua pela casa até abrir um buraco no piso? Cobrir-me inteira e  fechar as pernas pro mundo? Abrir aquela garrafa de vodca boa e beber em goladas largas, no gargalo? Colocar uma música animada e dançar pela sala, ou continuar me lamuriando em silêncio? Tomar dois Dormonid? Agarrar-me naquelas mesmas ilusões que nunca vingam? Enfrentar a verdade do outro lado das continas ou simplesmente continuar fingindo que não estou vendo?

(um dia, em dezembro de 2008)

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Desafinada.

Desafino quando a voz que canta é a do meu ego.

Melhor me aquietar em silêncio.

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Ponto Final

 

Fico olhando para os cadarços verdes do meu All-Star. Fico observando as meninas embriagadas passarem de carro e mexerem com garotos que discutem inflamadamente assuntos chatíssimos de pé na esquina. Fico tentando entender se o telefone tocou movido por vontade, curiosidade, ciúme ou por um impulso estranho que eu jamais vou conseguir compreender.  Bêbada, sentada na sarjeta, esperando que ele decida se vai mesmo me ignorar ou vem comigo, eu pareço desolada. Pareço não. Eu estou.Eu sei que acabou. Eu sei que eu vou olhar e fazer o que lhe prometi. Um certo dia, eu disse a ele: ok, eu aviso quando isso for pouco. Eu já sabia que era. Naquele momento a espontaneidade que ele dizia querer preservar quando me pediu que não pusesse nem nome nem data nas coisas, esmaeceu. Eu nunca mais sorri para ele do mesmo jeito. Eu nunca mais me permiti abraçar sem encolher os ombros num gesto defensivo involuntário. E pode ser que me venham dizer que me falta paciência para construir relacionamentos, mas a verdade é que eu quero romances pré-moldados. Nada dessa coisa estabelecer alicerces e confianças. Eu quero envolver-me com desvairados feito eu, a quem eu possa dizer “se joga” e vê-los desfrutar comigo o prazer da queda-livre sem se preocupar com a dureza do chão. Meu cigarro acaba, o ônibus para no sinal. Está frio e eu preciso ir para casa. Levanto-me e caio fora sem me despedir. Com a cabeça tamborilando na janela, tento compor um jeito menos teatral de dizer que é pouco. Um jeito doce de dizer que foi bom, que eu curti, que ele me fez um bem que nem te conto. Mas que à ansiedade de esperar por uma presença incerta, eu prefiro a concretude pacificadora da minha solidão.

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Aprendizados

Não adianta lutar contra um “nunca” dito com sincera fé.

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