Ponto Final
Fico olhando para os cadarços verdes do meu All-Star. Fico observando as meninas embriagadas passarem de carro e mexerem com garotos que discutem inflamadamente assuntos chatíssimos de pé na esquina. Fico tentando entender se o telefone tocou movido por vontade, curiosidade, ciúme ou por um impulso estranho que eu jamais vou conseguir compreender. Bêbada, sentada na sarjeta, esperando ele decidir se vai mesmo me ignorar ou vem comigo, eu pareço desolada. Pareço não. Eu estou. Eu sei que acabou. Eu sei que eu vou olhar e fazer o que lhe prometi. Um certo dia, eu disse a ele: ok, eu aviso quando isso for pouco. Eu já sabia que era. Naquele momento a espontaneidade que ele dizia querer preservar quando me pediu que não pusesse nem nome nem data nas coisas, esmaeceu. Eu nunca mais sorri para ele do mesmo jeito. Eu nunca mais me permiti abraçar sem encolher os ombros num gesto defensivo involuntário. E pode ser que me venham dizer que me falta paciência para construir relacionamentos, mas a verdade é que eu quero romances pré-moldados. Nada dessa coisa estabelecer alicerces e confianças. Eu quero envolver-me com desvairados feito eu, a quem eu possa dizer “se joga” e vê-los desfrutar comigo o prazer da queda-livre sem se preocupar com a dureza do chão. Meu cigarro acaba, o ônibus para no sinal. Está frio e eu preciso ir para casa. Levanto-me e caio fora sem me despedir. Com a cabeça tamborilando na janela, tento compor um jeito menos teatral de dizer que é pouco. Um jeito doce de dizer que foi bom, que eu curti, que ele me fez um bem que nem te conto. Mas que à ansiedade de esperar por uma presença incerta, eu prefiro a concretude pacificadora da minha solidão.
© 2009, Ana Mangeon. All rights reserved.
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“Mas que à ansiedade de esperar por uma presença incerta, eu prefiro a concretude pacificadora da minha solidão.”
Cacete, Ana… Eu tô há dias tentando traduzir um sentimento em palavras e não sai… E você consegue isso numa frase. Sacanagem.
Brilhante.
ah
esse impulso estranho versus solidão…
velho embate dos que
apenas são,
sentem.
e eu virei fã da ana mangeon.
Eu já sou há tempos!
(O comentário não reconheceu a tag sem os espaços… XD)
Aliás, nem com eles… O_o
Enfim… Eu tentei escrever duas vezes [/mode tiete] (ou “mode tiete off”, só pra garantir)…
“Mas que à ansiedade de esperar por uma presença incerta, eu prefiro a concretude pacificadora da minha solidão.”
Tipo de coisa que preciso fazer. Ugh.