De manhã
Acordei semi-desmemoriada, nua e sozinha em minha cama. Diferente do usual, estar sozinha era um alívio e tornava pequenas as chances de eu ter feito algo de que fosse me arrepender. Conheço bem o que acontece nessas noites de álcool e declarações de amor que não mudam nada. Já cedi outras vezes à sede insana de inventar uma realidade nova, instantânea. Não. A vontade é sempre a de acreditar em qualquer mentira novidadeira, arrancar com os dentes pedaços de um corpo de sabor novo e me sentir livre, ainda que momentaneamente. De flagelar outras carnes buscando um gosto diferente que me encante, sempre tentando me vingar ou encontrar alguma redenção.
Respirei profundamente e o ar do meu quarto parecia imaculado. Não cheirava a sexo e o álcool parecia já ter evaporado apesar da janela lacrada pelo pesado black-out cor de prata. Não havia vestígios de fumaça, nem cinzas no chão. Olhei minhas unhas da mão uma por uma e estavam intactas. Também não tinha lama entre meus dedos dos meus pés. Definitivamente, eu havia entrado em casa calçada. Fui investigando os cômodos do apartamento procurando algo que me desse uma pista de como eu havia chegado. Torcendo para não encontrar nada.
E nada que não fosse usual, havia. A gata me acompanhava de longe, encarando minha agitação com as pupilas dilatadas e bigodes caídos. Olhava-me com olhar pedinte típico dos gatos que morrem de pena de seus donos. Observava-me como quem finge pedir conforto com a intenção secreta de dar conforto. Tentei recordar se eu tinha lhe dado colo ao entrar trôpega no apartamento. Talvez eu lhe tivesse chutado ou a esmagado entre meus braços ébrios até quase lhe exaurir o ar. Talvez eu tivesse apenas despido a roupa toda no meio da sala. Rasgado a malha da camiseta. Arrancado os botões da calça. Ou talvez tivesse apenas ignorado sua presença felina e me enfiado embaixo do edredom. Eu não sei. Não lembro. Eu não vou lembrar.
Pensei que a penumbra das persianas baixas compusesse uma atmosfera melancólica, mas é possível que eu mesma tivesse criado o clima. Ao lado da TV, junto ao violão mudo, meus sapatos repousavam de solas para cima contando que não quebrei os saltos, mas caminhei bastante. No banheiro, os discos de algodão falavam que apesar da tontura, eu lembrei de remover a maquiagem. O celular também guardava seus segredos: pessoas ligaram e eu não atendi. Eu não reconhecia metade daqueles números. Havia mensagens na caixa postal. Eu liguei para pessoas que também não me atenderam.
Fui até a cozinha, joguei a roupa fedida de muito cigarro na máquina de lavar. Tomei um litro Coca-Cola. Fiquei olhando para a panela cheia d’água na pia há 4 dias criando fungos, e mais uma vez não me animei de lavá-la. Eu deveria estar de ressaca, mas não estava. Nada de dor de cabeça, nenhum enjôo. Santo Engov. Santo Engov…
Por alguma razão, eu tinha medo de levantar as persianas. Na verdade não era bem medo, era só a certeza de ter anoitecido por dentro e não querer amanhecer. Não existia nenhuma razão para amanhecer. Era a certeza de ter acordado para tudo e preferir ainda estar dormindo. E continuar sonhando. E continuar sonhando até quando? A graça do sonho reside no não se saber que é sonho, e eu sei. E fazer o que, agora? Continuar andando nua pela casa até abrir um buraco no piso? Cobrir-me inteira e fechar as pernas pro mundo? Abrir aquela garrafa de vodca boa e beber em goladas largas, no gargalo? Colocar uma música animada e dançar pela sala, ou continuar me lamuriando em silêncio? Tomar dois Dormonid? Agarrar-me naquelas mesmas ilusões que nunca vingam? Enfrentar a verdade do outro lado das continas ou simplesmente continuar fingindo que não estou vendo?
(um dia, em dezembro de 2008)
© 2009, ana. All rights reserved.
DigaNo comments yet. Be the first.
Leave a reply