Frio
Os 10 graus dessa noite me fazem lembrar das melhores e das piores madrugadas de um tempo onde liberdade era questão de simplesmente partir à francesa, sem dizer adeus a ninguém.
Eu partiria hoje mesmo, houvesse algum lugar no mundo onde eu quisesse estar agora senão aqui.
(É curioso que estar em movimento ou fixada em um endereço seja igualmente solitário. Meu corpo é o código postal da natural solidão humana que de tempos em tempos me habita. Acredito que estar só seja também um exercício da liberdade embora haja momentos em que eu questione quão livre é uma liberdade que eu não pedi nem nunca quis conquistar. Talvez essa solidão seja somente minha liberdade a deriva, flutuando em minha alma sem rumo e sem esteio.)
Ninguém diria, mas eu criei raizes. Nessa casa há objetos que eu comprei e por isso posso chamá-los de meus. Fui eu que pintei essas paredes nas cores que bem quis e semeei as flores que delicadamente crescem no parapeito da janela. Fui eu que me plantei nesse tapete morno, onde tantas vezes cedo ao jugo da preguiça e adormeço antes de terminar de escrever essas palavras. Fui eu que manchei os azulejos do banheiro com essa tinta escura que já mal consegue esconder meus cabelos brancos.
Os 10 graus dessa noite me fazem lembrar da necessidade das meias. E das luvas. Desses homens passageiros que pegam carona na minha sabedoria tonta e sempre desembarcam antes de chegar onde pediram que eu os levasse, logo após eu ter deixado para trás o último retorno.
© 2009, Ana Mangeon. All rights reserved.
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Solidão… Palavra que abandona e acolhe…
Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus,sem tentação de volta.
Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada,mas sozinha.
Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre,se ainda recordas
(Cecília Meireles)
ai, ai… sei bem, sei bem.
Essa memórias do frio são por vezes as piores. Mudei de casa virtual, Ana.