Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de July, 2009

Constatação

Certos amores não duram mais que a necessidade da certeza de serem ainda amados.

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Uma passagem ligeira só para dizer que minha ausência é consequência de uma vontade infinita de vida.

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Dear Mr. B

Não se desculpe, querido. Nem crie nenhuma desculpa para não ter vindo ao meu encontro. No fundo, é curioso que ao saber de que nos faltaria um escriba, eu tenha pensado logo em você que está aí tão longe. Não sei o que me fez acreditar que você largaria a Cidade quando ela já está tecnicamente a seus pés – você ainda não notou?

Primeiro eu tive uma sensação de que o tinha feito movida por algum tipo de inveja, e logo me senti muito envergonhada de mim mesma. Tem dias que eu sinto muitas saudades daí, mas são umas saudades estranhas. Os dois anos que já se passaram desde o meu retorno parecem dois dias dado o frescor e sinestesia das memórias. E ao mesmo tempo eu me sinto como se tivesse inventado tais memórias. Eu não estava feliz aí, meu amigo, mas eu faço soar como se houvesse estado.

Num sacudir de cabeça essa sensação passou e eu entendi que eu não estava simplesmente lhe atiçando para ocupar o lugar do escriba que partia, mas sim porque eu precisava muito de alguém habitando aquela casa que falasse, ainda que eventualmente, a minha língua. Na hora que eu vi que eu era o último infante na batalha diária pelo valor de se contar uma boa história, eu quis reforços. E aí eu automaticamente quis você e lhe mandei aquela mensagem. Por favor, me perdoe se revolvi suas questões e se minhas razões foram egoístas. Até o receber de sua carta estava tentando me iludir, jurando que na hora que escrevi aquelas palavras você estava tendo um pensamento transatlântico e que, instigado por essa telepatia, aquele “Tem vaga pra redator aqui, afim?” escorregou furtivamente pelos meus dedos e alcançou o teclado.

(A boa nova é que já marquei a nova data para desbravar a Grande Maça – parto no dia 2 de Janeiro. A brincadeira de aprender a escrever imagens começa dois dias depois. Você tem seis meses para avaliar com carinho a idéia de se juntar a mim nessa empreitada.)

Sobre São Paulo, ah, São Paulo é tão possível quanto qualquer outra Cidade. Dias e noites, frios e calores. Romances que nunca duram ou se eternizam. Carros blindados e mendigos. Homens bem e mal vestidos. Mulheres naturais e feitas em laboratório. Momentos em que a gente se sente tão em casa que quase se dissolve no ar. Outros em que, de tamanha repulsa, mal conseguimos encostar os pés no chão ao levantar da cama.

Criei uns artifícios para que me doesse menos o processo de fixar raízes: arrumei a casa do meu jeito, providenciei prateleiras para os meus livros, adotei uma gata. Manipulei a atitude de viver – ou de achar que estou vivendo – para que na hora que o vento soprar eu tenha algo mais em que pensar além de nessa minha curiosidade infinita pelo mundo. Ah, e gastei uma fortuna num bom curso que me ensinasse coisas que eu quero saber e saciasse essa minha vontade de outras Cidades pelo menos por um tempo.

Devo lhe segredar algo: ando desconfiada que não existem várias Cidades, Breno. Ou que, se existem, cada ser humano tem a sua: única, pessoal e intransferível. Eu sou o código postal da Cidade que me habita, você o da sua.

Se elas forem realmente impossíveis, é possível que nós também sejamos.

Um beijo. Curta o verão por mim.

A.

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