Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Dear Mr. B

Não se desculpe, querido. Nem crie nenhuma desculpa para não ter vindo ao meu encontro. No fundo, é curioso que ao saber de que nos faltaria um escriba, eu tenha pensado logo em você que está aí tão longe. Não sei o que me fez acreditar que você largaria a Cidade quando ela já está tecnicamente a seus pés – você ainda não notou?

Primeiro eu tive uma sensação de que o tinha feito movida por algum tipo de inveja, e logo me senti muito envergonhada de mim mesma. Tem dias que eu sinto muitas saudades daí, mas são umas saudades estranhas. Os dois anos que já se passaram desde o meu retorno parecem dois dias, dado o frescor e sinestesia das memórias. E, ao mesmo tempo, sinto como se tivesse inventado tais memórias. Eu não estava feliz aí, meu amigo, mas eu faço soar como se houvesse estado.

Num sacudir de cabeça, essa sensação passou e eu entendi que não estava simplesmente lhe atiçando para ocupar o lugar do escriba que partia; eu precisava muito de alguém habitando aquela casa que falasse, ainda que eventualmente, a minha língua. Na hora que eu vi que eu era o último infante na batalha diária pelo valor de se contar uma boa história, eu quis reforços. E aí, eu automaticamente quis você e lhe mandei aquela mensagem. Por favor, me perdoe se revolvi suas questões e se minhas razões foram egoístas. Até o receber de sua carta estava tentando me iludir, jurando que na hora que escrevi aquelas palavras para você, eu estava tendo um pensamento transatlântico e que, instigado por essa telepatia, aquele “Tem vaga pra redator aqui, afim?” escorregou furtivamente pelos meus dedos alcançando o teclado.

(A boa nova é que já marquei a nova data para desbravar a Grande Maçã – parto no dia 2 de Janeiro. A brincadeira de aprender a escrever imagens começa dois dias depois. Você tem seis meses para avaliar com carinho a idéia de se juntar a mim nessa empreitada.)

Sobre São Paulo… Ah, São Paulo é tão possível quanto qualquer outra Cidade. Dias e noites, frios e calores. Romances que nunca duram, ou se eternizam. Carros blindados e mendigos. Homens bem e mal vestidos. Mulheres naturais e feitas em laboratório. Momentos em que a gente se sente tão em casa que quase se dissolve no ar. Outros, em que, de tamanha repulsa, mal conseguimos encostar os pés no chão ao levantar da cama.

Criei uns artifícios para que me doesse menos o processo de fixar raízes: arrumei a casa do meu jeito, providenciei prateleiras para os meus livros, adotei uma gata. Manipulei a atitude de viver – ou de achar que estou vivendo – para que na hora que o vento soprar eu tenha algo mais em que pensar além de nessa minha curiosidade infinita pelo mundo. E gastei uma fortuna num bom curso que me ensinasse coisas que eu quero saber e saciasse essa minha vontade de outras Cidades pelo menos por um tempo.

Devo lhe segredar algo: ando desconfiada que não existem várias Cidades, Breno. Ou que, se existem, cada ser humano tem a sua: única, pessoal e intransferível. Eu sou o código postal da Cidade que me habita, você o da sua.

Se elas forem realmente impossíveis, é possível que nós também sejamos.

Um beijo. Curta o verão por mim.

A.

© 2009 – 2010, Ana Mangeon. All rights reserved.

6 comments

6 Comments so far

  1. Marco Nascimento July 4th, 2009 10:44 pm

    Como vc escreveu sobre os pronomes, “ainda que sejam outros, todos são eu”, também as cidades descritas por Marco Polo, diz Kublai Khan, pelas mãos de I. Calvino, são todas Veneza, ainda que dela ele nunca tivesse falado.

  2. camila July 7th, 2009 1:09 pm

    eu lendo as linhas e as intenções destes dois amigos distantes… achando lindas as observações constatações. e concordo, como concordo… lindo com sempre. beijo, anita!

  3. Patrícia July 7th, 2009 4:05 pm

    Se formos todos uma cidade própria, Ana, então não adianta de nada mudar de lugar. E nisso eu não posso acreditar, não ainda.

  4. Ana July 7th, 2009 5:57 pm

    Ah Patrícia…eu invento histórias, é verdade. Mas não minto…

  5. Breno July 9th, 2009 8:16 pm

    correio!

  6. danilo sanches August 26th, 2009 2:21 pm

    Delícia de texto. Bem disse Marco (Polo?) Nascimento — num comentário aí pra cima: todas as cidades são a Veneza da nossa infância.

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