Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Hibernar

Encontro-me em um estado de completo ensimesmamento, por isso os poucos relatos e ainda mais escassas presenças. Não quero visitas nem companhia ainda que eventualmente as solicite muito mais por hábito que por real vontade. Não que as despreze, isso nunca. Apenas não são necessárias. A necessidade enfraquece a sinceridade do  sentimento. Não precisar de alguém é um modo de amar sinceramente.

Nesse momento, o relógio da cozinha se move no mesmo ritmo do meu coração. A simetria no pulsar é  coincidência. Ambos escondem dentro de suas caixas enfeitadas engrenagens plásticas e pilhas que nunca duram muito tempo. O relógio é frágil. Meu coração é frágil. Eu sou frágil. Contudo nossa carcaça relativamente dura nos garante uma qualquer sobrevida. Mantenho minha cabeça e patas escondidas dentro de casa porque hoje eu sou como o relógio da cozinha, mas também sou como as tartarugas que cabem confortavelmente em si mesmas.

Há quem vá confundir tudo isso com melancolia, provavelmente aqueles que, embora jamais confessem, suam frio se largados por muito tempo diante de espelhos. Eu não sou uma mulher de muitos medos e os que tenho são na sua maioria  pueris. Esse estado de ensimesmamento me traz um humor profundamente pacífico:   produzo em um ritmo agradável e divirto-me com parcimônia. Eu não quero nada, eu não desejo nada. E essa indiferença faz com que as pequenas conquistas do dia-a-dia tenham aquele sabor delicado de presente ganho sem nenhum motivo especial.

Infelizmente, quando cismo de me recolher dessa forma, acabo privando da minha presença pessoas amorosas que jamais me faltam.  Muitas são as vezes em que me pergunto como são ainda capazes de suportar minhas esquisitices.  Elas me aceitam com todas palavras difíceis, ausências egoístas. Elas gostam de mim apesar das tormentas e das partidas.

Acabei de me dar conta que tenho uma sorte tremenda que eu nem sei se mereço.

Eu não preciso, mas sempre há alguém a minha espera pronto para descortinar toda uma primavera logo assim que eu cansar da hibernação.

© 2009, Ana Mangeon. All rights reserved.

6 comments

6 Comments so far

  1. Craw August 5th, 2009 5:18 pm

    Lindo, lindo e lindo!

  2. biti August 6th, 2009 3:42 pm

    também ando meio enfurnada dentro de mim mesma, sentindo um aconchego egoísta e uma preguiça infinita de “estar”.
    beijos, querida

  3. Mari August 8th, 2009 12:28 am

    Passei por isso aí há pouco tempo. Só me falta quem abra as cortinas. Porque já me basta de hibernar :]

    abraços.

  4. Carmem August 11th, 2009 12:52 pm

    Dentro do amor sincero, enfeitado singelamente com admiração, guardado a sete chaves atrás das tão faladas carcaças, pela percepção sutil de medos ínfimos e pueris, pela mera semelhança astrológica talvez, mais por vontade que real, tem alguém que anseia, despretensiosamente, o silencioso despertar de uma irmã de alma, distante e presente, de ontem, hoje e certamente amanhã. Sim…somos sortudas de fato. Amo você.

  5. Roberta September 27th, 2009 8:54 pm

    Cheguei aqui por acaso,me sinto muito a vontade em olhar tudo. Sutileza e percepção combinadas em textos carregados um pouco de tudo.

  6. Roberta September 27th, 2009 8:56 pm

    Cheguei aqui por acaso,me sinto muito a vontade em olhar. Sutileza e percepção combinadas em textos carregados com um pouco de tudo.

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