O porta-aviões do History Channel.

Foi desembarcado sob a acusação de racismo. Ele mesmo se assumiu como tal embora os companheiros mostrassem várias fotos suas abraçando Samoanos e moço refugiado do Haiti tenha se despedido com um beijo no rosto que ele não refutou. Era simples: faltava pouco para que chegassem ao Iraque e questões raciais sempre são boa desculpa. Para mim, o moço no documentário do History Channel queria desembarcar. Simplesmente não acreditava valer a pena correr risco de morte por seu país.

Eu sei porque lembro do meu primeiro desembarque. Eu estava há mais de três semanas com muita dor e começava a puxar a perna esquerda. Emma, disse que se recusava me causar uma hemorragia estomacal e me negou uma nova cartela de Voltaren. Era uma terça-feira e o navio ficaria parado o dia todo no porto de Civitavecchia. Era minha chance. Paguei vinte dólares a Muritah para que ele me ajudasse. Muritah era uma criatura curiosa. Falava pouco inglês, mas entendia perfeitamente tudo que lhe pedíamos, por isso era o melhor ajudante que uma camareira podia sonhar. Trabalhava feito uma abelha operária com um sorriso enorme na cara; tudo que eu queria aparecia feito antes mesmo que ele terminasse de dizer “yes, madameeee”. Assim, os 24 quartos da minha estação estavam arrumados antes do meio-dia.

Entrei feito um furação na minha cabine, troquei o vestido de mucama por jeans e camiseta. Fazia mais de quarenta graus naquela tarde. O calor na Itália tem algo estranho, dá uma embriaguês diferente. Subi as escadas fazendo um barulhão danado com as Havaianas sopapeando o piso de borracha dos degraus até a ponte 4 -o deck onde ficava a recepção, o balcão de excursões e o duty free. Já tinha passado meu cartão na catraca quando ouvi a voz de Paolo “Paula, aspetami”. Não queria que ele fosse comigo. Sabia que ele ficaria triste ao perceber minhas intenções. Curiosamente, durante toda a tarde ele sequer desconfiou. Andamos quase dez quilômetros – ele me carregou no colo boa parte do trajeto – até que finalmente chegamos ao hospital. Médico, exames, laudo. Eu estava com minha carta de alforria nas mãos.

O papel que eu carregava era uma carta-bomba e eu nem sabia. De repente era um tal de chefe, encarregado, médico de bordo e comandante me chamando, pedindo explicações. Milhões de sorrisos escondendo o medo de um belo processo internacional. Eu não ia processar ninguém. Estava doente e queria ir para casa, só isso.

E assim aconteceu.

Avisaram-me do meu vôo meia hora antes do navio deixar o porto de Gênova. Mal deu tempo de socar tudo na mala e me despedir dos amigos. Paolo pegou minha bagagem aos soluços. Eu queria querer chorar também, mas não, eu estava contente de ir-me embora. Saímos do navio. Avistei a van que me levaria ao aeroporto. Paolo enxugou os olhos. Depois segurou de leve nos cabelos de minha nuca e me beijou um beijo sofrido. Sentia as lágrimas escorrerem dos seus olhos pela minha bochecha e morrerem na gola da camisa branca que ele me comprou em Rhodes. Apertou-me contra o peito, me fez jurar que eu nunca ia esquecê-lo. Eu prendi a respiração e espremi bem meus olhos; ele merecia uma lágrima, mas ela não aconteceu. Eu entrei no carro. Ele desapareceu entre as caixas empilhadas no cais.

No caminho, o motorista tentou puxar conversa, mas eu me mantive em um profundo silêncio. Eu queria, mas eu não sentia nenhuma culpa em deixá-lo para trás. Eu me encarava no retrovisor e pensava que a dor era incômoda, mas eu podia suportar um tanto mais. A verdade é que aquela hérnia de disco no exame tinha sido para mim o que foram os asiáticos e chicanos para o marinheiro americano que chegava ao Iraque: a boa desculpa. Não que eu esteja comparando: eu não corria nenhum risco. Mas comprometer-me com um amor que eu nunca seria capaz de retribuir também me pareceu um jeito de morrer; um flutuando, congelado e faminto enquanto o outro, lentamente, vai afundando.

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  1. Breno September 12th, 2009 10:35 pm

    casa nova, que tal? o blog, não o exercício de escrita inaugural! ;D

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