Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de November, 2009

Ao Marraschino

Um pensamento fixo, obcecado pelo pouco que falta. Um outro lamentando o tanto que em vão, transborda.

De desencontro em desencontro, vou sofisticando minha receita de incompletude até ser capaz de dar a ela um sabor alegre e artificial de vida.

Não se engane; eu sou como aquelas bolinhas de chuchu que quando embebidas em licor forte, encantam os olhos com doce ilusão das cerejas.

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Relógio Antigo

No encontro dos ponteiros
seu badalar me golpeia:
-Sozinha, moça,
toda noite há de ser meia.

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Por enquanto, até quando.

Essa certeza de que embora as histórias se desenvolvam dos jeitos mais inusitados, seus finais serão sempre aquele que eu já conheço. É como se todas as estradas levassem a um mesmo destino; aquela mesma terra inóspita que mora em mim e me abriga, onde a beleza do caminho esmaece, as cores ficam pálidas e o ímpeto heróico de entrar na minha vida esmorece em uma manobra evasiva instintiva que eu sou capaz de prever muito antes do processo de desaparecer começar.

Eu posso intuir o fim no primeiro olá. Ainda assim, me alegro com o por enquanto, aceito o que me pode ser dado, até quando. Tento aproveitar ao máximo esses romantismos com morte anunciada. Mas devo confessar que frequentemente me pego a questionar se sou eu quem faz tudo errado ou a felicidade de amar é natualmente assim, tão precária…

Nessas horas não sei se o que escrevo são versos de amor ou epitáfios.

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Post it

Eu não preciso do meus versos quando eu tenho seus gestos.

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Post it

Acordei achando um pecado que certas alegrias nunca reverberem.

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Miss Zippo

É simples: pouco a pouco, eu me abandonei. E comigo, as velhas teimosias, os sonhos românticos que nunca passaram de suspiros entre um gole e outro. Entre um encontro e outro. De mim para os corpos sem sentido ocuparam minha cama sem deixar vestígios de sua passagem no colchão. Perdi o interesse pelas peles e seus atritos. Na consciência da improbabilidade do amor, os corpos se foram tornando artigos descartáveis. Assim, todos eles foram um tanto como aquelas bonecas de papel dos tempos de criança: a brincadeira sem conseqüências de despir depois vestir e enfim destiná-los ao esquecimento no fundo de um armário úmido que um dia seria tomado pelo mofo.

Eu amava me apaixonar. Eu gostava de me apaixonar duzentas vezes pela mesma pessoa e ao mesmo tempo por outras duzentas. Isso me movia, me enchia de energia. Mas, de repente, sem nenhuma razão aparente, perdi o gosto. E foi isso que eu tentei explicar quando ele surpreendentemente ressurgiu com todo seu arsenal de ardis me chamando de Miss Zippo:

“Ah, Jay… os dias de Miss Zippo há muito se foram. É que as centelhas andam raras e eu já me desperdicei demais por aí com desgraça pouca. Aquela paixão que corria bolente nas minhas veias tornou-se um combustível escasso e como já não sou tão jovem, era urgente começar a economizá-lo. Sabe, quando acesa, não tem vento nem tempestade que me apague a chama – isso não mudou. Mas lhe devo dizer que já não é qualquer fagulha que me inflama…”

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