Miss Zippo
É simples: pouco a pouco, eu me abandonei. E comigo, as velhas teimosias, os sonhos românticos que nunca passaram de suspiros entre um gole e outro. Entre um encontro e outro. De mim para os corpos sem sentido ocuparam minha cama sem deixar vestígios de sua passagem no colchão. Perdi o interesse pelas peles e seus atritos. Na consciência da improbabilidade do amor, os corpos se foram tornando artigos descartáveis. Assim, todos eles foram um tanto como aquelas bonecas de papel dos tempos de criança: a brincadeira sem conseqüências de despir depois vestir e enfim destiná-los ao esquecimento no fundo de um armário úmido que um dia seria tomado pelo mofo.
Eu amava me apaixonar. Eu gostava de me apaixonar duzentas vezes pela mesma pessoa e ao mesmo tempo por outras duzentas. Isso me movia, me enchia de energia. Mas, de repente, sem nenhuma razão aparente, perdi o gosto. E foi isso que eu tentei explicar quando ele surpreendentemente ressurgiu com todo seu arsenal de ardis me chamando de Miss Zippo:
“Ah, Jay… os dias de Miss Zippo há muito se foram. É que as centelhas andam raras e eu já me desperdicei demais por aí com desgraça pouca. Aquela paixão que corria bolente nas minhas veias tornou-se um combustível escasso e como já não sou tão jovem, era urgente começar a economizá-lo. Sabe, quando acesa, não tem vento nem tempestade que me apague a chama – isso não mudou. Mas lhe devo dizer que já não é qualquer fagulha que me inflama…”
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3 disseram3 Comments so far
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Sobre o texto: belo.
Sobre o sentir: nem tanto.
Sobre o que causou aqui: aperto.
Pra ti: um beijo.
me senti assim até o ano passado! agora, sei lá, está tudo mudando e eu nem sei o porquê. mas é bom estar de volta…
sempre sincronizando… como vc me faz pensar! =)