Nó cego

Discretamente, ele iniciou o processo de desfazer os laços criados durante a vida que levou por anos e não quer mais. Ele quer recomeçar. Nada mais justo que ele querer recomeçar. E embora isso me mate por dentro – e ele não assuma – eu também sou um nó cego do qual ele precisa se desprender; agora que ele quer movimento, eu assentei.

Penso nisso sentada em um lugar de decoração exagerada na Broadway, onde, se presente, ele teria pedido um café com leite grande e me perguntado em seguida: chocolate? Penso nele bebericando o chocolate que ele não pediu para mim. Penso que ele agora estaria xingando essa cidade comigo, maldizendo a impossibilidade de todas as cidades do mundo. Eu lhe diria, entre um golinho e outro, que o Rio de Janeiro também é impossível. E ele me olharia com aquela cara desdém, levantando a sobrancelha direita.

Os nós. Dos meus dedos tamborilando, nervosamente, na mesa. Do choro entalado na minha garganta. Existe sim esse nó apertado que, contra todos os presságios, ainda nos segura e que eu não consigo desatar. Eu sei que tenho que afiar as facas. Logo chega a hora em que eu vou ter que cortar as cordas e deixá-lo partir.

Vai ser estranho. Eu nunca fui a metade que fica.

© 2010, ana. All rights reserved.

5 disseram

5 Comments so far

  1. Carmem January 29th, 2010 4:43 pm

    Nuca fomos a metade que fica.
    Mas sempre fomos estranhas.
    E sempre estarei perto pro que vier dessa ‘nova’ metade. Sejam risos, sejam lágrimas, sejam palavrões ou ressacas. Amo, mesmo que longe.

  2. Ana Mangeon January 29th, 2010 4:48 pm

    Também te amo, Hermanita! xxxx

  3. Breno February 8th, 2010 8:38 pm

    Por um instante pensei que falava de mim! heh!

  4. Ana February 8th, 2010 9:49 pm

    Ehy! Como estão as coisas aí na terrinha? Preparando o terreno para o retorno?

  5. Patrícia February 9th, 2010 6:44 pm

    Bonito, Ana.

Leave a reply