Motivos para escrever
O que me incomoda não é a crítica, mas a pretensão de pensarem que me conhecem quando nem eu mesma me conheço muito bem. Essa mania que algumas pessoas têm de achar que eu escrevo para elas quando eu escrevo para mim. Sim, eu sou egocêntrica e minhas motivações quase sempre egoístas. Até mesmo quando extremamente legal eu sou egoísta – ajudo porque me faz bem, cuido porque me conforta. São raras as vezes em que começo a escrever com intenção evidente de fazer literatura – não posso sequer dizer que alguma vez o fiz. As palavras acontecem. Elas escapam uma a uma e vão se agrupando. Às vezes viram conto, outras poemas. Quase sempre são apenas a minha forma de racionalizar essa angústia constante que viver me causa e não permitir que ela me paralise. Por mais que todos nós tenhamos aqueles dias em que seria bom ir dormir sabendo que não se vai acordar, é preciso continuar vivendo. Se viver fosse opcional, eu escolheria continuar vivendo. Mas gostaria que vez ou outra nos fosse permitido entrar em hibernação.
Olho em volta, observo as pessoas e vejo um mundo que a cada dia me parece valer menos a pena. Aí, quando o peso dessa idéia parece que vai mesmo dobrar as minhas pernas, eu escrevo. E depois aperto aquele botãozinho azul onde se vê a palavra publicar. O peso alivia. Não me sinto diferente dos doidos que saem por aí falando com seus botões; balbuciamos sem nos importar em sermos ouvidos, porque nosso ópio não é atenção em si, mas a sua possibilidade.
Escrevo porque eu percebo demais, entendo demais. Escrevo porque tenho essa sensação de que se eu não der à minha intuição um formato ela pode acabar virando uma loucura e eu ainda não estou pronta para a enorme liberdade que enlouquecer representa.
© 2010, Ana Mangeon. All rights reserved.
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muito bom, querida!
“ajudo porque me faz bem, cuido porque me conforta.”
direto e verdadeiro. e foda-se toda a falsa bondade cristã.
vc escreve porque é escritora. teu conto ou relato, poema ou egocentrismo é literatura. até linkei tua página e nunca mais tirei porque é bom, só por isso. e me interessa muito, a falta da linha divisória dos gêneros, a linha era tênue mesmo, não separava tão bem o poema da prosa, o relatório da bondade. os leitores de blog geralmente pensam só no real, é uma praga. lêem e acham que a voz do narrador é somente você. e dão opinião (sobre a vida e não sobre a escrita). é claro que existe uma fantasia sendo feita na cabeça de quem lê, na hora que lê, sobre quem escreveu.. mas hoje há uma carência de leitura para além do alfabeto funcional, que despeja em quem escreve a agonia da falta de elaboração. e ninguém sabe mais o que é ficção e real.
Exatamente!
O mundo de hoje é muito parecido com o de ontem. O mundo de ontem, conseguimos admirar pelo trabalho que deixaram e que ainda hoje continuam interessantes, geração após geração; já o mundo de hoje, nós mesmos temos que fazer essa seleção, avaliar o que presta ou não baseados em nossos conhecimentos e nossas confusas buscas.
Gostei muito dos seus textos, até onde li, aqui e no “twitter”. São bastante intrigantes. Parece que já virei fã!