Fogo Manso
A pedra esfregou na rodinha metálica e o isqueiro acendeu de primeira. A chama, então, queimou vagarosamente a ponta do cigarrinho slim. Dei um trago demorado. E foi a primeira vez em meses que eu acendi um cigarro com a sincera intenção de desgustá-lo. Fumar sempre fora uma válvula de escape. A chaminé imaginária para liberar a pressão da vida a comprimir o meu espírito.
Era assim: eu acendia o cigarro com as mãos sempre trêmulas. Às vezes perdia o controle e os fósforos se acabavam pelo chão. Eu tentava apaziguar meus dilemas no crepitar da brasa; aspirava a fumaça tóxica e me intoxicava. Daí soltava uma baforada, soprava a ansiedade para fora do corpo e deixava as cinzas pelo chão. Voltava a mim na ilusão de ter-me carbonizado os problemas. Normalmente eles ainda estavam lá fazendo pouco da minha inocência.
Não sei ao certo o que me deu de colocar o maço na mochila. De catar com as pontas dos dedos o rolinho magricela e colocá-lo sedutoramente entre os lábios. Surpreendo-me com minhas próprias pantomimas. Conto-me que mudei nesses gestos que ninguém percebe e que nem sempre eu compreendo.
Diferente do habitual, hoje, engolir a fumaça e deixá-la corromper os meus pulmões nada mais era que um momento masturbatório e delicadamente masoquista; o prazer de dolorosamente existir sem maiores consequências; de desperdiçar longos minutos soprando argolas etéreas pelo ar. De debruçar-me na sacada e permitir à brisa úmida dos trópicos beijar por alguns instantes a pele tépida dos meus braços nus.
© 2010, Ana Mangeon. All rights reserved.
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