Archive for December, 2010
Fraturas
A mandíbula moveu-se rapidamente para a direita, depois para a esquerda e pude sentir na língua o calor desprendido pela fagulha que cintilou secretamente dentro da minha boca, acompanhada por um estalido oco. Bochechei com saliva. Cuspi meio molar na palma da mão e fiquei aguardando a dor que certamente viria. Não bastasse as febres sem explicação e os desmaios. Era preciso mudar antes que não me sobrassem dentes, antes que nunca mais houvesse dias sem enxaquecas. Antes que todos os chopes se tornassem amargos demais e a vida se convertesse numa roda-viva de resmungos e auto-comiseração.
Suspirei mais alto do que gostaria e ele me olhou indagativo. Abriu com a ponta dos dedos a minha mão e invadiu a privacidade da palma onde eu escondia aquela meia banda de dente. “Outro?”, perguntou. Movimentei os olhos, dando-lhe uma resposta que podia ser tanto um sim quanto um não. “Eu nunca vou entender essa sua ansiedade destrutiva…” – murmurou com alguma dó e retirou-se da sala sem olhar-me novamente.
A ansiedade era muito simples de explicar e praticamente impossível de entender: era preciso que o ano terminasse. Era preciso que eu me pudesse iludir, como se realmente a vida zerasse o placar no estourar dos rojões. Eu precisava dessa anistia imaginária. Eu precisava dessa fé ignorante de que arrancada a última página do calendário, as dores cessariam e todas omissões seriam perdoadas. Eu precisava acreditar que toda minha coleção de pequenos e grandes pecados finalmente encontrariam sua mágica redenção.
Eu precisava que o ano terminasse logo. E contava os segundos para o merecido repouso vestida com uma aparente apatia que nada mais era que um espelho reverso da minha alma; ali eu era a antítese de toda essa urgência que me desgasta os dentes, inflama a carne e fustiga a alma.
2 commentsBigornas Cadentes
Reclamo de tudo apenas para me distrair desse profundo descontentamento comigo mesma. Dessa minha preguiça de mudança. Dessa minha inapetência de vida. Dessa teimosia em trair minha natureza e tentar me adaptar.
Eu tenho pontas, farpas e cantos vivos. Eu não encaixo.
Eu vivo numa estabilidade desconfortável que me aprisiona.
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