Archive for January, 2011
Carolina de azul
Ela chorou, ela chorou e não foi pouco. Ele não lhe fez um afago. Não pegou-a no colo, não implorou perdão. Era preciso que implorasse perdão. Socou as paredes, chutou o ar. Comportava-se como um bicho enjaulado. E pensava que a porta estava ali aberta, era só sair, era só ir lá. Faltou-lhe coragem. A consciência de um erro grave é algo que amedronta; sempre existe a possibilidade de não poder ser desculpado. E Bruno entendia que não havia perdão.
Estava apavorado e era porque de uma hora para outra, assim, no intervalo entre o fechar e o abrir de um olho, ele percebeu que do momento em que legitimou-se sua presença na vida de Carolina ela começou a deixar de ser feliz. E isso aconteceu porque ele era o sonho maior dela e ele se havia permitido que ela deixasse de ser o seu. Estúpido, filho da puta estúpido. Trincou os dentes, rosnou. Uma gota salgada de suor irritou seus olhos ou ele chorou.
Foi até a janela, fumou um cigarro para se acalmar. Dois, três. Um maço. Quis mais. Tossiu, pigarreou. Tomou coragem e abriu a porta. Tinha que ver sua noiva naquele minuto, na verdade já devia ter ido no minuto anterior. Respirou fundo. Repensou os gestos, as palavras que queria dizer, que tinha que dizer. Gritou um foda-se sonoro que ecoou no prédio da frente. Sabia que ia tremer, gaguejar. Caminhou austero. A porta rangeu lúgubre antes de bater a suas costas.
Carolina debulhou-se. De fato, pensou mesmo que ia secar. E nunca se havia tido notícia de qualquer coisa no mundo capaz de fazer Carolina chorar, porque ela era prisma, emanava luzes de todas as cores.
Pretérito imperfeito. Carolina desbotou. Carolina não é mais.
E não é porque Bruno tingiu irreversivelmente Carolina de azul.
(um texto velhinho, carinhosamente resgatado pela Zélia e revisto muitos anos depois)
3 commentsSobre a tatuagem do vento
Aí eu soltei isso no msn pro Mark :
“eu quero que alguém entenda o que eu sinto pelo vento e traduza em traço sem que eu descreva
o vento que leva, o vento que traz de volta
o vento que não sopra quando eu queria que soprasse
o vento que arrasta quando estava bom estar
por aí …
A única pessoa que saberia fazer isso ficou com medo de deixar o traço dele pra sempre em mim – ou não quis mesmo
…mas deixou mesmo assim…”
(Mark diz: romântico…
E eu suspiro, já imune a essa dor.)
Coisas para fazer quando o sono não vem
O sono não vinha, não havia mais nada na TV. Peguei o violão, liguei o Garage Band e de um jeito meio sem jeito cumpri uma antiga promessa sonora. A rua e a chuva são a minha banda.
Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
1 commentCorrespondência Violada
Querido Breno,
Você vai perceber que você não é mais o mesmo porque agora você é muito mais que o que era. O lado duro de voltar é não ter mais como se esconder, como inventar uma felicidade DDI – está todo mundo vendo, não é fácil iludir quem gosta da gente assim, tete-a-tete. Logo você deixa de tentar, acredite. Por outro lado, lhe digo: o que nos fazia “just an ordinay being” lá, aqui vira holofote, confete e queima de fogos. E no gozo indescritível desse carinho no ego tão massacrado pelos anos de transparência e anonimato, a gente percebe que aquela Cidade tem um jeito cruel demais de nos tornar alguém particularmente interessante quando voltamos para casa.
Essa Cidade aqui também sabe ser cruel quando quer, mas tanto fez que acabou me seduzindo de um jeito diferente. Eu ainda tenho vontade de outras Cidades, porém hoje me pego sempre pensando em tíquetes de ida e volta.
Acho que a Paulicéia pode sim lhe ganhar. Apostaria se eu fosse de apostar. E digo mais: se você lhe der uma chance , pode acabar descobrindo que ainda que ela não seja para casar, a danada beija muito bem.
Seja bem vindo, amigo!
Beijos,
Ana
1 commentRitos de passagem
Baixei dois ou três filmes. Fiz massa de pizza. Escovei a Psycat. Limpei a casa. Tomei um banho de sal grosso e rosa branca. Mandei alguns sms festivos. Assisti 2/3 de Toy Story 3. Olhei para o relógio e vi que faltava pouco pra 2010 acabar. Pensei no que vestir. Lembrei que nem branco, nem vermelho, nem azul, nem verde, nem amarelo nunca funcionaram. Abri a espumante vagabunda que veio na cesta de Natal da firma. A rolha acertou meu queixo. Arranquei toda a roupa do corpo e fiquei ali, nua em pelo, segurando uma taça daquela bebida barata; esperando que as pessoas começassem a gritar na Paulista. Elas gritaram. De repente, 2010 tinha acabado. Já não era sem tempo.
Bebi 3 taças seguidas sem me preocupar com a ressaca. Aí, a Ceci ligou: vem pra cá! Vesti-me e fui.
Bebi mais um pouco. Conheci umas três novas pessoas legais. Aprendi que “eu não tenho dinheiro porque dinheiro não aceita desaforo”. Dancei um pouco. Ri um pouco. Vivi um pouco e senti falta de toda a vida que eu andei desperdiçando. Cansei e me despedi. Caminhei para casa bastante trôpega, escoltada por um desconhecido com quem esbarramos ao sair da festa. A Ceci ordenou que ele me acompanhasse e ele, gentilmente, obedeceu. É tão fácil comandá-los enquanto ainda são meninos. Ele vai tentar vestibular para medicina pela segunda vez esse ano. Ele me deu 28. Ele me abraçou carinhosamente na porta de casa e desejou-me um super ano novo. Disse-me que eu sou uma garota muito legal e foi buscar a namorada que estava em outra festa a duas quadras daqui. Garota foi um afago na minha alma. Eu disfarço, mas moça sempre dói.
O portão do prédio se abriu. Entrei e subi as escadas. Abri a porta. Psycat veio me receber com cara de fronha. Liguei o computador para escrever essas palavras, para não esquecer que 2011 começou numa sequência de ações e reações totalmente inesperadas. Para lembrar que eu ainda sou capaz de improvisos. Para lembrar desse tesão que eu sinto pelo imprevisto. Para, amanhã, recordar-me que é assim que eu gosto de viver. Do quanto eu gosto de viver.
No comments