Archive for February, 2011
Eu disse ao Marcito:
“Se eu não posso ser simples, eu estou tentando ser leve. Quem sabe um dia eu atinjo a complexidade de um floco de neve?”
E percebi que não era questão de poder simplificar, mas de querer. E que eu nunca tinha tentado a leveza com empenho suficiente.
Roncou trovoada. O gato se escondeu embaixo da cama. Caiu o temporal.
A luz piscou mas, inspiradoramente, resistiu .
No commentsCobras e lagartos
E de repente, nada me pertence mais. E por mais que as vísceras fervam por dentro do corpo, o sangue suba nos olhos, os dentes trinquem e a voz encrespe, a única coisa a fazer é assistir em silêncio os dias se arrastarem, consumindo aos poucos meu viço e vontades. Não existe propósito em estar aqui além do exercício penoso de querer me opor, de querer brigar, e acabar compelida a ceder sem sequer questionar. E de imaginar o que será dos pequenos mimos que compus com alma e ideias; se ficarão para morrer, se receberão carinho do outro que virá para terminar como lhe convier. Deve ser natural sentir ciúme das ideias nessas horas – mesmo quando, aparentemente, ninguém acha que elas são assim, grandes coisas.
As ideias… Poder, enfim, arrancar do peito a frustração cultivada ao vê-las murcharem depois de meses da na iminência de germinação. Dar a tudo que foi pensado, desenhado e gerido com paixão um último olhar, dizer o “foda-se” e trazer no dia seguinte o corpo de mente inóspita para acomodar-se no meu lugar. Não sei estar pela metade, fazer as coisas por fazer. Não sei desapegar em doses homeopáticas. Eu sou dessas pessoas que arrancam a farpa com um puxão só.
Não fui eu mesma nesses 12 meses, porque eu tentei ser madura, porque eu tentei me ajustar. Porque eu tentei viver conforme os padrões de normalidade para evitar opiniões e julgamentos. Eu tentei me conformar; não deu. Tentei querer o que eles querem, ver o que eles veem, compreender a vida como eles compreendem. Mas eu não sou quem eles são –ou acham que são. E ainda que eu não saiba o que eu quero, tenho certeza que não é o que eles querem. Ao assumir essa realidade, amplio as lacunas e deixo as opiniões reverberarem sem esboçar qualquer reação.
Mas confesso que sinto uma qualquer inveja dessas pessoas imunes, que sabem bem como não colocar o coração em tudo. Essas pessoas que batem sem agonia a porta nas costas, mesmo quando entendem que estão deixando um pedaço bonito de si para trás. O bom e velho desapego.
Sinto muita inveja das cobras e dos lagartos toda vez que chega a hora da renovação.
4 commentsPreciso silenciar
O discurso que poderia ser leve e sedutor sai cru derramando-se em jatos cáusticos no colo dos de boa fé me dão crédito e escutam: dou-lhes minha honestidade aceitando seus riscos enquanto diluo minhas inúmeras inseguranças em frases de efeito.
Basta eu fechar a boca para perceber que minhas frases de efeito não são alegorias suficientes. Sinto-me tola.
Preciso parar. Preciso silenciar. Preciso rir mais de mim. Preciso aprender a gozar o medo.
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