Archive for March, 2011

Turbo

Parecerá sempre com uma grande aventura pois essa é a imagem que eu quero – preciso? – criar na imaginação de quem escuta minhas histórias. Eu sempre pareço mais bonita na imagem criada pela audiência. E, acredite, é tão fácil distorcer discretamente tudo e fazer do medo, a coragem. Da confusão, a certeza. Da solidão, a liberdade. Do outro lado da rua, o Mundo.

Ponho o pé na estrada para saciar a minha sede infinita de culturas e paisagens. Atiro-me feliz, depois visto a armadura do relato. Farto-me de novos e velhos ares e seleciono cuidadosamente as sensações. Aí, eu conto. Conto porque contar é uma forma de reviver e enxergar sob novos ângulos a experiência.

Conto também – como negar?- porque contar é uma forma de ter meu ego eventualmente acariciado. Embora perigoso, a vaidade é um combustível eficiente para nos fazer seguir adiante. Conto para, desavergonhadamente, valer-me do seu poder de propulsão.

E assim, vou curando minha estagnação com outros fusos; esses remediozinhos caros, mas de gosto muito bom.

(Praga, 18/03/2011)

7 comments

Pensamentos, café e shortcake

É um misto de nostalgia, vontade e consciência da mudança. Há 5 anos eu vivia nessas mesmas terras e desfrutava dessa mesma paz. E não era que eu me conformasse: eu tento, mas eu nunca me conformo. Apenas, as ingresias dessa vida eram outras, quase sempre tão serenas que simplesmente passavam despercebidas. É curioso como aqui a vida passa discretamente, com hora marcada e sem maiores atrasos – não que os atrasos sejam um problema. Perder as rédeas da vida, aqui, é uma desatenção menor. Se a corda escapole da mão, nos damos conta sobressaltados e apressamos desnecessariamente o passo; a vida, preguiçosa, ao se dar conta de que não a conseguimos acompanhar, senta, pacientemente nos aguarda e tem sempre um sorriso caloroso para o momento do reencontro.

Muitos deles, possivelmente, nunca viveram em outro ritmo, por isso consideram-se terrivelmente atribulados. É uma inocência tão graciosa que não tenho vontade de dizer que eles de nada sabem. Controlo minha eterna ânsia de honestidade e sigo atuando, alternando expressões de empatia e comiseração.

Talvez se aborrecessem comigo se pudessem entender minhas palavras. Talvez não fossem perceber o tanto de admiração com que escrevo cada uma delas. Eles VIVEM. E eu quase sinto inveja desse viver desacelerado, indolente, que não nutre grandes expectativas e por isso, raramente, decepciona.

Não sei.. talvez, com tantos castelos, se sintam todos um tanto nobres. Houve um momento em que eu também me senti princesa. Acho que me sinto um tanto princesa agora mesmo; a princesa do Reino do Café Quente e do Shortcake. A princesa que desbrava castelos para encontrar as chaves da torre de si mesma, a torre onde ela mesma um dia se encarcerou. A torre de onde ela escuta, ao longe, os acordes de uma canção celta. De onde escreve essas palavras apertando os olhos para enxergar melhor. Para não sonhar. Para não chorar.

1 comment

Bloco do eu sozinho

Estou fazendo confete de mim, picadinho de tudo isso que eu não gosto em mim para jogar para cima, em catarse. E liberta, enfim, alegrar-me novamente com a folia de todas as coisas singelas da vida. Quero me desenrolar e rodopiar por aí lépida como uma serpentina multicor.

Uns colocam o bloco na rua e fingem que nem é com eles e sentem que a vida se torna automaticamente mais leve e anárquica no repicar do primeiro tamborim. Esses fazem xixi no chão. Outros reclamam do barulho e correm para a janela para fazer muxoxo. Esses assistem o desfile das Escolas de Samba pela televisão.

Eu nego minhas origens e coloco meu bloco no mundo para ver de longe tudo aquilo que me intimida: eu solto a franga e me reinvento.

(Já fiz muitas vezes: funciona. Mas o curioso é que com a idade, a auto-reinvenção vai ficando difícil, tão difícil quanto aprender a plantar bananeira ou perder dois quilos em uma semana)

Já deu de isolamento e auto-flagelação. Eu sei porque, de repente, eu lamentei profundamente viajar só.

E isso nunca tinha acontecido antes.

1 comment