Archive for June, 2011
Frases do passado.
“Abraço-lhe longa e amorosamente na falta de palavras inteligíveis, neologismos possíveis.”
Novembro, 2005
No commentsTango
Mamãe tinha me dado um bule grande enrolado num pano de prato e o cheiro de chá de maças me inebriava, pois mamãe tinha um jeito especial de caramelar as lascas finas da fruta com mel e depois fervê-las. Enfiou-me a boina da cabeça e com um tapinha na bunda me colocou porta afora. Não se demore que o chá esfria, advertiu.
Subi a Ladeira da Piedade contando os paralelepípedos e as florezinhas de que não sei o nome nas jardineiras das janelas, espalhando o aroma adocicado que eu portava com todo meu zelo e dando bom dia a todas as pessoas, pois todo mundo aqui no bairro se conhece por nome e sobrenome o que acaba criando uma atmosfera de cordialidade e respeito. Meu destino era o número 133, a última casa da rua íngreme, a casa de Dona Nativa Cortez.
Cheguei lá no alto com as bochechas muito vermelhas, pois era verão e o chá aquecia muito minhas mãos apesar da toalha. Tudo que eu queria era pedir à senhora dos cabelos muito brancos em coque um copo de água bem gelada e dizer a frase que mamãe havia ensaiado comigo. Diga a Dona Nativa Cortez que é para curar os males da alma.
Já estava com os nós dos dedos a postos na porta e arfava muito e pensava se não era melhor aguardar o ar me voltar nos pulmões para que pudesse dar o recado de maneira inteligível quando ouvi o soar de uma orquestra de acordeões escapando pelas janelas fechadas e cortinas pesadas da casa. E um piano, e violinos. Larguei o bule na escadinha em frente à porta procurando uma janela por onde tentar decifrar o que acontecia até que, por uma lasca de vidro quebrada pela bola peralta dos meninos da Rua do Laranjal, avistei um pé delicado sobre agulhas muito altas e negras cingido por uma tira de paetês brilhantes no tornozelo. Apoiava-se numa cadeira enquanto mãos de dedos longos e unhas carmim ajustavam o calçado nos pés. E a musica soava melodiosamente quando, como se a moça percebesse ou tivesse intuído minha presença, abriu as cortinas e saiu do cômodo.
Hipnotizado pelos olhos e melenas negras- melenas curtas e imóveis ajustadas na cabeça como uma moldura para o rosto de traços fortes e nariz levemente adunco- eu, menino bobo, corri a me dependurar na janela seguinte e ela me sorria enquanto ajustava a agulha do toca discos e batia de leve os saltos nos tacos do assoalho fosco de tanto breu. A luz lhe era generosa, criava uma sombra bonita quando cruzava os joelhos magros um ante o outro, lentamente, andante como andamento dos violinos que gemiam de prazer, não de dor. Uma lasca no tecido cor de grafite exibia-lhe a perna direita. Uma porta se abriu e pude ver o bico de um sapato envernizado, masculino. E depois seu terno cortado e branco e uma flor vermelha na lapela e um bigode fino e a janela tinha virado uma tela que me exibia algo que se parecia um filme que eu já tinha visto e não me lembro qual.
Puxou-a pela mão. Ela não mais me olhou e escorregou o pé para trás e uniram-se então peito no peito, olhos nos olhos. O andamento mudou. Allegro. Ela tinha uma rosa na boca. A mão dele na cintura dela era como uma guia firme, as pernas dela entre os joelhos dele eram espadas de rara destreza e raro fio. Eles bailavam muito bonito e eu chorava sem sentir, enxugando as lágrimas nas mangas de minha camisa. O sol não mais me incomodava.
Presto. Moviam-se como se não houvesse mais chão, nem tempo, nem ar havia mais pois eu na minha meninice também já esquecera de tudo e não identificava nem pés, nem corpos as luzes da sala clareavam, as cortinas se abriam sozinhas e eu acreditava que a musica poderia ser ouvida nas cidades próximas, talvez nas distantes. E quiçá até Deus ouvisse e agora era andamento prestíssimo, giravam e giravam, giravam tanto que tudo que eu podia perceber era uma espiral em mesclas de cinza e branco e uma linha sutil avermelhada criada provavelmente pela flor vermelha na boca da moça, pela flor vermelha na lapela do homem. Acabou a musica de súbito. Desapareceram.
Sacodi a cabeça bastante tonto, lembrei-me do bule na porta na certeza de que já tinha sido roubado. Corri em torno da casa, tentei me aproximar da entrada mas se havia formado uma pequena multidão de senhoras chorosas e desconsoladas. Pessoas falavam em murmúrios por toda a extensão da Ladeira da Piedade, sinal de respeito. Avistei o bule quebrado na calçada quando mamãe me fez um croque no cocuruto. Menino ruim! Eu falei parar você não se distrair no caminho! Agora é tarde.
Retiravam o corpo já muito idoso e inchado do tempo pela porta numa maca improvisada. Tirei o meu chapéu em reverência e contemplei a face tranqüila de Dona Nativa Cortez por alguns segundos surdos, quando, em adágio, soou pianíssimo um acordeon só para os meus ouvidos e eu percebi uma rosa vermelha em minha mão.
Março, 2004
No commentsMeus olhos ficam cinza quando chove
(Carta a um amigo que a vida dissolveu – Novembro,2003)
Ah sim, amigo, você está sempre coberto de razão quando me fala da minha solidão. Sim, às vezes eu sou esse vazio que você vê. Seus olhos não se iludem com a minha pose; nunca. E assim, com esse seu distanciamento acadêmico, você enxerga uma lacuna que, ao contrário de outros entendidos de mim, não lhe parece começar no espaço circunscrito ao buraco que há entre as minhas pernas. Talvez termine ali. Começar, no seu entendimento, nunca. Nem no meu.
Minha dor ebule lá de dentro, num oco que fica entre os ossos do tórax, encaixado nos pulmões. E é por isso que tem horas que me falta o ar. Respiro mal faz tempo. Tenho umas vertigens loucas quando o sangue me ferve, e você sabe, porque meio lastimando meio escandalizado, você viu. E notou que eu sei bem engolir as lágrimas, que eu sei sorrir na adversidade. Eu aprendi tantas coisas nos últimos anos, não foi?
Cinismo, eu aprendi o cinismo. Um cinismo tão bem elaborado que ficou natural. Eu gosto de me sentir acima disso tudo. Mas me mata, e sei que você sabe porque eu sei que você me ama desse único amor verdadeiro que é o amor fraternal e eu percebo nos seus olhos esse amor quando eles me censuram por eu merecer mais que isso. Nem sempre a gente quer o que merece. Devia, mas nem sempre a gente quer o que merece.
Se eu fosse querer o que eu mereço (ou acho que mereço) eu ia querer tanta coisa! Eu acho que eu mereço muito. Mas eu só quero o que eu quero. E se eu mereço mais do que eu quero e o que eu quero é menos do que eu mereço, me parece tudo deveria ser mais fácil mais, como se eu merecesse um milhão e só quisesse cem. Números são sempre tão simples. Números são ou não são. Pessoas são variáveis complexas, amigo. A gente acaba achando que entende mas nunca tem certeza. Pessoas são aquele x que vai de menos infinito a mais infinito. É difícil ser gente na maior parte do tempo. Mais difícil ainda é ser humano.
A humanidade é a certeza da imperfeição, uma consciência de não ter nada sob controle. O que você viu quando meus olhos umideceram sob as lentes, foi só a minha humanidade se manifestando, precipitando.
Eu ainda sou um ser humano um pouco mais suscetível que você, porque eu tenho em mim poesia demais. A poesia em excesso faz mal a saúde porque o poeta não se satisfaz em ser humano, ele quer não ter o sentimento, mas ser. E ser o sentimento é sofrer das mazelas que a humanidade nos impões duas vezes. E ser poeta não é uma escolha, a gente nasce assim, com um olho meio cor de rosa ou cinzento. Eu vejo cor-de-rosa, e no meu mundo cor-de-rosa, ainda vai chegar o dia em que vão trazer flores para mim. O problema é o muro, amigo. Pois existe um muro entre as cores do dia-a-dia e as cores da poesia. E eu já não sei quando posso transpô-lo.
Meus dias de solidão são na verdade esse outro lado do muro, o lado em três cores. Esse abismo sobre o qual eu balanço os pés agora. Eu vejo tudo, amigo, eu vejo tudo lá em baixo. Mas se eu pular para o lado de lá, eu não volto para o lado de cá, porque a poesia é um muro baixo, e a verdade é bem mais profunda, é um poço de águas turvas. A realidade é sempre tão assustadora que é difícil de mergulhar…
Não tenha pena de mim. Não tema por mim. Eu não sou mais triste nem mais feliz que ninguém. Eu oscilo. Eu oscilo como oscila todo ser humano: ora cansaço, ora euforia.Também não acredite que eu vivo vazia por não saber materializar o amor. Eu tenho um mundo de amor latente em mim que é o que preenche, que é muito mais amor que se pode imaginar caber no meu corpo pequeno.
Eu levo em mim um rio bravo e caudaloso, que ainda não encontrou a sua foz.
1 comment1 xícara e 1/2 de açúcar
Com frequência, minha frustração se manifesta na forma de uma incansável rabugice. E eu continuava resmungando. Talvez porque quisesse algum endosso ou consolo, talvez para amenizar a sensação de derrota que eu sentia no momento. Ou talvez eu inconscientemente quisesse testar seu limite. Foi então que, provavelmente de saco cheio da minha ladainha, ele virou o queixo abruptamente por cima do ombro e me olhando de esgueira disse, “Ana mas você sabe que você é…”
Sim, eu sei…
Eu sei que é preciso descalçar as ferraduras, vestir as luvas de pelica e aprender a me calar. Sim, eu reconheço que a voz da minha insegurança é áspera e diz coisas torpes. Sim, eu sei que é imperativo que os medos fiquem nas gavetas de chave da alma trancafiados com todos os meus traumas. É preciso enterrá-los n’algum lugar bem obscuro e depois jogar a chave fora.
Sim, eu sei que é urgente baixar a guarda e podar os espinhos. Para tudo, para a vida. Colocar nessa acidez ancestral aquela xícara e meia de açúcar que torna qualquer presença mais palatável e – porque não? – eventualmente voltar a ser uma criatura constantemente aprazível.
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