Archive for July, 2011

Sobre medos e movimentos

Devo-lhe dizer que eu não sou uma pessoa dotada de muita paciência. Talvez em algum momento tenha sido, mas, se fui, isso é algo que se perdeu nas intempéries dessa vida. Eu tenho muita ansiedade. Uma pressa que me faz as pernas trôpegas e uma sede de goladas largas que sempre me leva ao engasgo. Eu não sei aguardar os tempo das coisas. Eu colho os frutos ainda verdes. Eu  leio a última página dos livros antes da primeira. Escrevo poemas que sempre começam pelo verso final. Eu tenho essa pretensão de sempre saber como tudo termina e essa compulsão por construir meios e inícios que façam parecer que valeu a pena.

Devo-lhe dizer que estou com medo. Medo de não saber me portar. Medo de não saber esperar.  Medo de que não haja no fundo nada a aguardar. Medo das peças que minha mente dada a fantasias possa me pregar. Medo, eu devo lhe dizer que estou morta de medo.

Mas também lhe devo segredar que é um medo muito gostoso pois tem gosto de vida.

(E o bom dos medos saborosos é que eles assustam mas nunca imobilizam.)

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Oráculo

“Quando desistimos da nossa singularidade para descansar no comportamento de grupo, aí está a origem do mal. O grupo, para mim, é o mal.” – Oráculo dito por Contardo Calligaris na Flip que chegou a mim via @louback.

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Renovação

Insistirei ainda uma vez, antes de permitir que o silêncio se perpetue pelos cômodos e vista a casa com sua atmosfera lúgubre e confortável. Antes que o ar se deite sobre todos os móveis como uma pesada e morna manta de veludo púrpura. Insistirei ainda uma vez, antes que todas as partículas de poeira ascendam no balançar do velho tecido, cintilem transpondo a claridade pálida das lâmpadas e me venham fazer cócegas nos pelinhos das narinas trazendo um fedor discreto de perfume vencido, nostalgia e mofo. Insistirei ainda uma vez, antes de fechar as janelas, antes de empilhar os tapetes. Antes de me desfazer das roupas e me despedir de todas as outras coisas. Antes de me despir da velha casca e destruir todos os espelhos. Antes de quebrar os pratos e rasgar os quadros dando risada. Antes de lembrar dos porta-retratos. Antes de cantarolar antigas canções. Antes da sede por um último copo d’água, de um último momento. Antes de pedir desculpas aos fantasmas e as baratas.

Insistirei ainda uma vez antes de acender o cigarro; o cigarro que será aceso apenas na intenção da fagulha.

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Cavalo de Tróia

A palavra pretendia confortar, porém veio recheada com um subtexto que só machuca.

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Auto-retrato

Não se engane: há dias que nem Narciso consegue encarar o espelho.

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Pensamentos Desconexos

Há dias em que eu sou o vento. Noutros vela e o timão. Há dias em que sou os três; nesses, eu sempre entendo o propósito das âncoras

Nem toda fuga é garantia de libertação.

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