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Vitória e eu

Há dias que penso incansavelmente em Vitória Régia. Vitória Régia é um personagem. Um personagem com início e fim. Sem meio.

Eu nunca soube direito o que aconteceu com ela depois daquela noite, em janeiro de 2007, quando eu passei longas horas observando-a ser derrotada pelo temporal e pelo medo. O fato é que Vitória ficou ali, passava das duas da manhã, e ela ficou ali. Sua silhueta longelínea cambaleando ao vento para direita e para esquerda, a saia longa colada nas coxas e os cabelos grudados no rosto. Até que um motorista apressado, borrifou-lhe a camiseta com um esguicho de lama e ela saiu do transe. Não reclamou. Apenas desgrudou os cabelos da testa e levantou os olhos em direção ao relógio da rua. Então, fez sinal para um taxi e voltou para casa.

Eu sei que ela havia recebido notícias de alguém retornava e que ela não sabia se queria de volta. Ainda assim, ela se lembrava bem dos gostos dele e prontificou-se a fazer o melhor jantar de suas vidas. E, por isso, saiu na chuva, de madrugada, para fazer compras. Sei também que ela entrou em casa sem acender as luzes e sem receio de molhar o tapete. Colocou as sacolas no chão, arrancou os sapatos, despiu-se inteira. Acendeu um cigarro, ficou flertando com São Paulo pela janela e não atendeu o telefone que insistiu tocando até a secretária eletrônica entrar.

Aí, Vitória sumiu. Perdeu-se nas muitas coisas que eu tinha a fazer. Nos trabalhos. Nas tantas tarefas muito mais importantes que pegá-la pela mão e guiá-la até seu destino.

A verdade é que eu conhecera Vitória dois anos antes desse dia de temporal. Eu não sabia seu nome, mas sabia que ela esperava por alguém sentada no escuro da sala de estar de sua casa – uma sala de estar que hoje se parece tanto com a da minha casa. Eu não sabia seu nome, mas sabia que ela estava disposta a morrer de amor, e por isso, não me assustei quando aquela mulher vomitou seu coração nas mãos e ficou segurando ali, ele pulsando, pulsando até que ela se cansou e rompeu a dente as artérias que lhe pendiam da boca, libertou as borboletas do estômago e adormeceu suavemente antes que pudesse testemunhar a delicada sincronia entre a campainha que tocava e o coração que preguiçosamente escorria pela suas mãos para partir-se em cacos pelo chão.

Vitória é um personagem. Um personagem que já sabe seu fim. Um vulto pálido de pé no tapete da sala fitando-me sem expressão, um fantasma que me pede uma história que a faça crer que morrer de amor vai valer a pena.

Essa é a grande questão; foi por isso que aprisionei Vitória nesse canto escondido da memória. Para que ela não se aproxime muito. Para que ela não me assombre demais. Para não dar a ela a oportunidade de me perguntar “Vale?’ e ter que confessar que eu já não sei.

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