Archive for November, 2011

Equações Noturnas

{rivobanzo > minhocas na cabeça ⇔ ∄ sono ∈ Ana}

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Desmedida

Eu que sempre fui
balança, arreio, bússola,
termostato, régua e conta-gotas
esqueci-me das medidas.
Fiz-me um cata-vento
e, contente, fui para a rua
ignorando que o vento
não avisa quando vai mudar de direção.

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Ideia, produção e tempo

Minha questão é toda essa, meninos. O que fazemos com a ideia.

A ideia é fagulha que pode eventualmente surgir sob pressão. Tem gente que funciona assim, então não faz sentido generalizar. Nascida a ideia, a fórceps ou a Macunaíma, é que começa o que vai fazer diferença no final. O processo de transformar essa fagulha em projeto, demanda tempo. E tratar o projeto para que ele se torne algo absolutamente foda, é ourivesaria.

O rush-rush virou a regra no nosso mercado. Criamos clientes impacientes e voluntariosos. Perdemos um bocado do controle sobre nosso ofício. Somos pasteleiros com muito mais frequência que ourives. E são raríssimos os casos em que, colocando na ponta do lápis, não constatamos que para cada cem pastéis entregues, a gente faz uma jóia – na verdade, em certos lugares, nem isso. Aquela ideia incrível até faz bonito no ambiente controlado do vídeo case. A gente tenta enganar os coleguinhas e fingimos que eles nos enganam. Mas a gente sabe muito bem distinguir ouro, bijuteria e chapeado safado da vinte e cinco. Seja no trabalho alheio ou no nosso, a gente sempre sabe. Tem gente que não liga. Felizes deles e seus leões. Eu confesso que me dói muito quando eu vejo uma boa ideia virar um video-case lindo sabendo que ela foi pra rua torta (nem vou entrar no mérito dos jobs sobrenaturais, esse assunto tão démodé). Ansiedade, estratégia, necessidade, frenesi, conta para pagar ou que cazzo seja nunca serão justificativas que me consolem. Não sei vocês, mas toda vez que uma ideia boa resulta em uma entrega meia boca eu fico com dó. Acredito que a ideia, uma vez considerada boa e plausível, merece ser tratada com carinho.

A realidade é que incontáveis vezes não damos à ideia o carinho que ela merece depois de aprovada. Carinho demais é conta que não fecha. Na minha humilde opinião conta que não fecha ou é megalomania ou problema de gestão em alguma etapa do processo. E a parte da megalomania, 99.9% das vezes, é culpa dos criativos : mea culpa. Acontece que, como nosso nível de exigência com a qualidade final do trabalho tende a ser muito maior que a dos clientes mesmo, a gente cede à urgência. Sabemos que poderia ficar muito melhor, mas o mais ou menos é suficiente para ele bater a meta, fazer bonito com o chefe. Além disso, ele tem pressa; o cliente SEMPRE tem muita pressa.

Sei que é preciso entender – entender não, aceitar – que  quase sempre vamos ter que fazer o melhor que podemos, a toque de caixa, com o lapis 2B e seguindo fielmente linhas pré-traçadas, não importando que a caixa de lápis de cor esteja ali, cheia de possibilidades, ao alcance das mãos. Não há tempo a perder.

O deadline que deveria ser o final feliz de uma jornada divertida, vira um monstro bizarro que tentamos agarrar à unha. Ele corre rápido. A gente até que consegue alcançar o infeliz no sprint final. Ganhamos por um nariz e de tão exaustos, nem conseguimos comemorar a vitória.

Acontece em todos os lugares. Grandes e pequenos. Acontece e aconteceu onde eu trabalhei antes, e antes do antes. E antes do ante-antes. Em proporções maiores ou menores, não importa. E por mais que nós tentemos – vez ou outra com significativo sucesso – elevar a publicidade ao status de arte, no seu cerne, ela não é. Publicidade é business. É negócio. E essa frustração é uma manga passada que a gente – entenda-se criativos com a mão na massa – tem que chupar com cada vez mais frequência.

Aí, o que nos resta é seguir rodando os pratos e tentando encontrar atalhos que nos permitam fazer jóias em tempo recorde. E ter a manha de escolher recheios exóticos para os pastéis diários que pagam nossas contas e caprichos.

Não vejo outra opção senão aceitar e me adaptar a essa realidade – desistir, abandonar e/ou enlouquecer não são opções, pelo menos não por ora. Mas uma coisa é certa: eu nunca vou me conformar em entregar trabalhos dos quais eu não morro de orgulho porque, em algum momento do processo, alguém superestimou a capacidade dos braços ou subestimou a impertinência do tempo.

(Esse mimimi todo começou por conta desse vídeo)

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