Archive for January, 2012

Como termina um amor platônico?

Não dizíamos nada como se fizéssemos um elogio ao nosso silêncio. Era muito raro ficarmos assim, calados; nem um som, nem um gesto, nenhuma alteração reveladora na respiração. Nada. Creio que, diferente de mim, ele estava em paz. Eu nunca soube estar em paz. Desconfio que desenvolvi algum tipo raro de alergia a ela. Basta estar tudo em ordem que me dá um comichão. Ele parecia relaxado em contraponto a minha tensão. Em cólicas, eu esperava uma palavra, qualquer uma, mas ele permanecia ali, deitado na minha cama, olhando fixamente para o teto com um olhar sem expressão, a mão esquerda apoiando a cabeça, a mão direita brincando com os ralos pelos de seu próprio peito. E assim ficamos por eternos cinco minutos.

Enfim, ele se girou preguiçoso para o lado e alcançou o maço de cigarros olhando para mim como quem pede permissão. Eu fiz que sim fechando os olhos de leve. Eu não fumo dentro de casa, mas para ele eu poderia abrir uma exceção. Eu podia abrir todas as exceções. O isqueiro fez aquele clique de quem fuma com estilo. Ele deu um trago longo e soprou na direção da janela. Eu olhava. Tenho um fetiche estranho com homem fumando, uma amiga diz que eu tenho Síndrome de Homem de Malboro. Ei, cowboy. No que você está pensando? Quis perguntar, mas não perguntei. Esse é o tipo de pergunta que toda mulher tem a obrigação de engolir em seco e eu engoli. Preferi não verbalizar minha insegurança. Ele sempre me achou mais forte que eu sou, ia entrar por um ouvido e sair pelo outro de qualquer maneira. E, puta merda, como ele ficava bonito nesses momentos de introspecção. Eu, ao contrário, parecia um bichinho assustado e havia escondido meus complexos embaixo das cobertas mais que rápido, no acender do abajur. Eu era uma criaturinha patética, extasiada com silhueta nua do homem que eu amava. Do homem. Do amor.

(Porgy, I is your woman now.)

Estendeu-me o cigarro sabendo que eu fumaria e eu me desembrulhei mostrando os peitos. Minha maquilagem toda borrada, minha cabeça doendo; eu, fatalmente, parecia vulgar. Deitou-se novamente do meu lado. Eu soprei a fumaça para cima mentalizando que aquele Carlton era um baseado forte que me roubaria uma risada, que romperia com aquele silêncio constrangedor. Eu sempre nos achei muito íntimos, mas essa noite provara que não. Éramos muito íntimos das idealizações que fazíamos um do outro. E isso eu entendi no momento que ele pigarreou duas vezes e finalmente disse:
- Você tinha tanta coragem. O que eu mais gostava em você era sua liberdade.

Eu poderia explicar que eu nunca fui livre, que eu sempre estive em fuga. Contudo, limitei-me a devolver o cigarro com um sorriso que significava qualquer coisa e fui procurar um último abrigo em seu peito. Ele deu um trago final e ficou olhando a brasa ainda um tempo antes de amassar a bituca no cinzeiro. Deu-me um beijo carinhoso na cabeça e adormeceu brincando com meus cabelos.

O que ele mais gostava em mim, era a distância.

Escapei de seu braço com cuidado para não acordá-lo. Eu queria me vestir e ir embora, mas a casa era minha. Fiquei, então, na sala, contemplando o nada pela janela. Fiquei esperando a Cidade acordar, mas já era dia e tudo continuava quieto. Entediada, voltei para a cama.

Talvez a Cidade me estivesse mandando embora ou seu silêncio fosse, na verdade, um acalanto para sono que nunca vem. Talvez a Cidade me estivesse dando um recado. Talvez a Cidade me dissesse para destruir de vez a fantasia. Talvez.

Encaixei-me nele para me despedir do seu corpo. Ele disse adeus me abraçando apertado. Adormeci.

Eu sabia. Ele sabia. A Cidade sabia.

Era dezembro. Faltava ainda um bocado para o Carnaval. Mas aquela era uma quarta-feira de cinzas. Ele acordou fagueiro, falando pelos cotovelos. Entrou no banheiro, mijou de porta aberta, vestiu-se apressado. Eu ria uma risada de fachada.

Chamou o elevador, imprensou-me na parede e beijou-me alisando minhas coxas. Ainda tentei empurra-lo de volta para o quarto mas ele se desvencilhou. Saiu pela porta com aquela cara abobada de quem trepou. Disse que voltava, mas nunca voltou. Na verdade, ele nunca esteve por inteiro.

Deixou seu cheiro impregnado nos lençóis, na minha pele. E nossa história terminou onde deveria começar. Agora eu sabia o gosto do seu corpo e era um gosto humano demais para o meu gosto.

Aquele amor se havia tornado matéria, matéria orgânica. E aconteceu que nem bem eu havia trancado a porta, o amor começou a se decompor.

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Outono/Inverno

Tema: “erramos de sombra”
Sugestão de Lois Lancaster

A alma outonal
visita antigas paisagens
onde folhas e ondas
dançavam
ignorando minha ansiedade.

Eu lembro da espera.
Eu lembro da longa espera.
E pensando em nós,
nos revisito.

O perfume dos cabelos escondidos.
as mãos suadas, renegando as luvas.
Nossos lábios salivantes
rachados pela temperatura.

Espíritos nus sob a lã escura
em busca de qualquer poesia,
de alguma outra verdade,
que nos fizesse possíveis

Penso nos passos
Ouço a crocância das folhas secas
Lembro da arvore infinta
que nos ouviu declamar todos Beats
e testemunhou todas as nossas juras.

Dizem que na nossa ausência
apodreceu e ruiu.
deixando um toco incomodo,
relutante, emergindo da terra.
E sua silhueta triste, tatuada
naquele chão onde a grama nunca cresceu.

Um tanto como nós,
Um tanto como esse
nosso sentimento inerte
cravado no peito
jazendo ao sabor do tempo.

Mas nós não deixamos marcas
Não deixamos nenhum legado.
E sucumbimos estragados,
mas sem causar grandes estragos.

Penso.

Penso em nós
Nos outonos de nós.
No que ficou de nós
E concluo:
Acertamos de árvore
Mas erramos de sombra.

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Um poema por dia – Dia 2

Tema: pessoas que falam a mesma língua mas não se entendem (metaforicamente ou não)
Sugestão do Zeh Fernando.

Ruídos de comunicação

Eu flerto com rima maluca
Ele responde em dialeto aramaico
Eu armo meu verso arapuca:
“Eu te amo”- no melhor grego arcaico

Ele pensa saca o que eu digo
Eu me iludo que o compreendo
Que bom seria entender-mo-nos falando
Tão bem quanto nos entendemos fazendo.

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Um poema por dia – Dia 1

Tema: Pum no elevador
Sugerido por Marlos Oliveira

25º andar

Ansiava, eu, pela viagem
Da terra rumo ao firmamento
E a contagem regressiva anunciava
O pouso da nave, ali, a qualquer momento.

Abriram-se as portas. Atropelou-me, a manada.
E chacoalhado pelo movimento, eu rodopiava franzino.
Puxou-me pela mão, minha mãe, irritada
“-Se mexe ou eu te largo aí, fiapo de menino!”

Em silêncio, os passageiros viajavam;
olhos para o chão, abstração dos artelhos
Eu, miúdo, seus rostos mirava
do meu ângulo, à altura de seus joelhos.

Aproximava-se, o nosso destino.
Eu percebi uma mudança no ar.
E quando eu já nem podia respirar
todos notaram o odor assassino.

A moça gorda, colou-se na porta
na esperança de salvadora brisa
O executivo levantou a gola
para filtrar o ar com a camisa.

A madame reclamava entre os dentes
“-Eta povinho mal educado!”
Entreolhavam-se, agonizando, os presentes
tentando encontrar um culpado.

Um velho tossia de quando em quando
feito um peixe que pulou do aquário.
“-Só mas um pouco, estamos chegando”
minha mãe dizia, agarrada ao rosário.

Tocou a sineta. “-Chegamos!”
vibrou com emoção, o velho sufocado
Saímos todos juntos, um bloco humano
com futum de lixo compactado.

Minha mãe, aliviada, agora ria
perguntando-se que fedentina era aquela.
Foi aí que eu, orgulhoso da picardia,
mostrei-lhe a minha mão amarela.

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