Archive for the 'Cartas' Category
Meus olhos ficam cinza quando chove
(Carta a um amigo que a vida dissolveu – Novembro,2003)
Ah sim, amigo, você está sempre coberto de razão quando me fala da minha solidão. Sim, às vezes eu sou esse vazio que você vê. Seus olhos não se iludem com a minha pose; nunca. E assim, com esse seu distanciamento acadêmico, você enxerga uma lacuna que, ao contrário de outros entendidos de mim, não lhe parece começar no espaço circunscrito ao buraco que há entre as minhas pernas. Talvez termine ali. Começar, no seu entendimento, nunca. Nem no meu.
Minha dor ebule lá de dentro, num oco que fica entre os ossos do tórax, encaixado nos pulmões. E é por isso que tem horas que me falta o ar. Respiro mal faz tempo. Tenho umas vertigens loucas quando o sangue me ferve, e você sabe, porque meio lastimando meio escandalizado, você viu. E notou que eu sei bem engolir as lágrimas, que eu sei sorrir na adversidade. Eu aprendi tantas coisas nos últimos anos, não foi?
Cinismo, eu aprendi o cinismo. Um cinismo tão bem elaborado que ficou natural. Eu gosto de me sentir acima disso tudo. Mas me mata, e sei que você sabe porque eu sei que você me ama desse único amor verdadeiro que é o amor fraternal e eu percebo nos seus olhos esse amor quando eles me censuram por eu merecer mais que isso. Nem sempre a gente quer o que merece. Devia, mas nem sempre a gente quer o que merece.
Se eu fosse querer o que eu mereço (ou acho que mereço) eu ia querer tanta coisa! Eu acho que eu mereço muito. Mas eu só quero o que eu quero. E se eu mereço mais do que eu quero e o que eu quero é menos do que eu mereço, me parece tudo deveria ser mais fácil mais, como se eu merecesse um milhão e só quisesse cem. Números são sempre tão simples. Números são ou não são. Pessoas são variáveis complexas, amigo. A gente acaba achando que entende mas nunca tem certeza. Pessoas são aquele x que vai de menos infinito a mais infinito. É difícil ser gente na maior parte do tempo. Mais difícil ainda é ser humano.
A humanidade é a certeza da imperfeição, uma consciência de não ter nada sob controle. O que você viu quando meus olhos umideceram sob as lentes, foi só a minha humanidade se manifestando, precipitando.
Eu ainda sou um ser humano um pouco mais suscetível que você, porque eu tenho em mim poesia demais. A poesia em excesso faz mal a saúde porque o poeta não se satisfaz em ser humano, ele quer não ter o sentimento, mas ser. E ser o sentimento é sofrer das mazelas que a humanidade nos impões duas vezes. E ser poeta não é uma escolha, a gente nasce assim, com um olho meio cor de rosa ou cinzento. Eu vejo cor-de-rosa, e no meu mundo cor-de-rosa, ainda vai chegar o dia em que vão trazer flores para mim. O problema é o muro, amigo. Pois existe um muro entre as cores do dia-a-dia e as cores da poesia. E eu já não sei quando posso transpô-lo.
Meus dias de solidão são na verdade esse outro lado do muro, o lado em três cores. Esse abismo sobre o qual eu balanço os pés agora. Eu vejo tudo, amigo, eu vejo tudo lá em baixo. Mas se eu pular para o lado de lá, eu não volto para o lado de cá, porque a poesia é um muro baixo, e a verdade é bem mais profunda, é um poço de águas turvas. A realidade é sempre tão assustadora que é difícil de mergulhar…
Não tenha pena de mim. Não tema por mim. Eu não sou mais triste nem mais feliz que ninguém. Eu oscilo. Eu oscilo como oscila todo ser humano: ora cansaço, ora euforia.Também não acredite que eu vivo vazia por não saber materializar o amor. Eu tenho um mundo de amor latente em mim que é o que preenche, que é muito mais amor que se pode imaginar caber no meu corpo pequeno.
Eu levo em mim um rio bravo e caudaloso, que ainda não encontrou a sua foz.
1 commentCorrespondência Violada
Querido Breno,
Você vai perceber que você não é mais o mesmo porque agora você é muito mais que o que era. O lado duro de voltar é não ter mais como se esconder, como inventar uma felicidade DDI – está todo mundo vendo, não é fácil iludir quem gosta da gente assim, tete-a-tete. Logo você deixa de tentar, acredite. Por outro lado, lhe digo: o que nos fazia “just an ordinay being” lá, aqui vira holofote, confete e queima de fogos. E no gozo indescritível desse carinho no ego tão massacrado pelos anos de transparência e anonimato, a gente percebe que aquela Cidade tem um jeito cruel demais de nos tornar alguém particularmente interessante quando voltamos para casa.
Essa Cidade aqui também sabe ser cruel quando quer, mas tanto fez que acabou me seduzindo de um jeito diferente. Eu ainda tenho vontade de outras Cidades, porém hoje me pego sempre pensando em tíquetes de ida e volta.
Acho que a Paulicéia pode sim lhe ganhar. Apostaria se eu fosse de apostar. E digo mais: se você lhe der uma chance , pode acabar descobrindo que ainda que ela não seja para casar, a danada beija muito bem.
Seja bem vindo, amigo!
Beijos,
Ana
1 commentCorrespondência Violada
Querido Breno,
Andei lendo suas palavras e me senti na obrigação de lhe dizer que o mundo virtual é simplesmente, O Mundo. O muro caiu faz tempo. Resta-nos aceitar e falar sobre as nostalgias do tempo em que carregávamos no corpo uma paciência natural, sem percebermos que era ela um dom; um dom tão simples que não precisava de aprendizado, nem desenvolvimento, nem concentração.
Engano-me, de tempos em tempos, esperando que o correio me traga os artigos chineses de noventa e nove centavos que compro pelo Ebay.
Beijos,
Ana
1 commentBilhetinhos
“No momento em que a gente aceita o coração do outro na mão, a gente aceita a responsabilidade de cuidar dele, primo… Às vezes eu acho que meu coração é uma batata-quente.”
(conversa com o primo Ivan, via Facebook)
1 commentCorrespondência Violada
Querido Márcio,
tenho um segredo que queria que dividir com você antes que as outras pessoas se deem conta e comecem a comentar à boca pequena.
Bem, eu não sei ao certo quando aconteceu, mas eu criei raízes.
(Volto em março com sonhos novos em folha e, se Deus quiser, linhas boas para você filmar.)
Luv,
Ana
PS: Tenha seu celular com você no Natal. Vou ligar! xxx
No commentsDear Mr. B
Não se desculpe, querido. Nem crie nenhuma desculpa para não ter vindo ao meu encontro. No fundo, é curioso que ao saber de que nos faltaria um escriba, eu tenha pensado logo em você que está aí tão longe. Não sei o que me fez acreditar que você largaria a Cidade quando ela já está tecnicamente a seus pés – você ainda não notou?
Primeiro eu tive uma sensação de que o tinha feito movida por algum tipo de inveja, e logo me senti muito envergonhada de mim mesma. Tem dias que eu sinto muitas saudades daí, mas são umas saudades estranhas. Os dois anos que já se passaram desde o meu retorno parecem dois dias, dado o frescor e sinestesia das memórias. E, ao mesmo tempo, sinto como se tivesse inventado tais memórias. Eu não estava feliz aí, meu amigo, mas eu faço soar como se houvesse estado.
Num sacudir de cabeça, essa sensação passou e eu entendi que não estava simplesmente lhe atiçando para ocupar o lugar do escriba que partia; eu precisava muito de alguém habitando aquela casa que falasse, ainda que eventualmente, a minha língua. Na hora que eu vi que eu era o último infante na batalha diária pelo valor de se contar uma boa história, eu quis reforços. E aí, eu automaticamente quis você e lhe mandei aquela mensagem. Por favor, me perdoe se revolvi suas questões e se minhas razões foram egoístas. Até o receber de sua carta estava tentando me iludir, jurando que na hora que escrevi aquelas palavras para você, eu estava tendo um pensamento transatlântico e que, instigado por essa telepatia, aquele “Tem vaga pra redator aqui, afim?” escorregou furtivamente pelos meus dedos alcançando o teclado.
(A boa nova é que já marquei a nova data para desbravar a Grande Maçã – parto no dia 2 de Janeiro. A brincadeira de aprender a escrever imagens começa dois dias depois. Você tem seis meses para avaliar com carinho a idéia de se juntar a mim nessa empreitada.)
Sobre São Paulo… Ah, São Paulo é tão possível quanto qualquer outra Cidade. Dias e noites, frios e calores. Romances que nunca duram, ou se eternizam. Carros blindados e mendigos. Homens bem e mal vestidos. Mulheres naturais e feitas em laboratório. Momentos em que a gente se sente tão em casa que quase se dissolve no ar. Outros, em que, de tamanha repulsa, mal conseguimos encostar os pés no chão ao levantar da cama.
Criei uns artifícios para que me doesse menos o processo de fixar raízes: arrumei a casa do meu jeito, providenciei prateleiras para os meus livros, adotei uma gata. Manipulei a atitude de viver – ou de achar que estou vivendo – para que na hora que o vento soprar eu tenha algo mais em que pensar além de nessa minha curiosidade infinita pelo mundo. E gastei uma fortuna num bom curso que me ensinasse coisas que eu quero saber e saciasse essa minha vontade de outras Cidades pelo menos por um tempo.
Devo lhe segredar algo: ando desconfiada que não existem várias Cidades, Breno. Ou que, se existem, cada ser humano tem a sua: única, pessoal e intransferível. Eu sou o código postal da Cidade que me habita, você o da sua.
Se elas forem realmente impossíveis, é possível que nós também sejamos.
Um beijo. Curta o verão por mim.
A.
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