Arquivo por categoria 'Cartas'
Correspondência Violada
Querido Breno,
Andei lendo suas palavras e me senti na obrigação de lhe dizer que o mundo virtual é simplesmente, O Mundo. O muro caiu faz tempo. Resta-nos aceitar e falar sobre as nostalgias do tempo em que carregávamos no corpo uma paciência natural, sem percebermos que era ela um dom; um dom tão simples que não precisava de aprendizado, nem desenvolvimento, nem concentração.
Engano-me, de tempos em tempos, esperando que o correio me traga os artigos chineses de noventa e nove centavos que compro pelo Ebay.
Beijos,
Ana
1 commentBilhetinhos
“No momento em que a gente aceita o coração do outro na mão, a gente aceita a responsabilidade de cuidar dele, primo… Às vezes eu acho que meu coração é uma batata-quente.”
(conversa com o primo Ivan, via Facebook)
1 commentCorrespondência Violada
Querido Márcio,
tenho um segredo que queria que dividir com você antes que as outras pessoas se deem conta e comecem a comentar à boca pequena.
Bem, eu não sei ao certo quando aconteceu, mas eu criei raízes.
(Volto em março com sonhos novos em folha e, se Deus quiser, linhas boas para você filmar.)
Luv,
Ana
PS: Tenha seu celular com você no Natal. Vou ligar! xxx
No commentsDear Mr. B
Não se desculpe, querido. Nem crie nenhuma desculpa para não ter vindo ao meu encontro. No fundo, é curioso que ao saber de que nos faltaria um escriba, eu tenha pensado logo em você que está aí tão longe. Não sei o que me fez acreditar que você largaria a Cidade quando ela já está tecnicamente a seus pés – você ainda não notou?
Primeiro eu tive uma sensação de que o tinha feito movida por algum tipo de inveja, e logo me senti muito envergonhada de mim mesma. Tem dias que eu sinto muitas saudades daí, mas são umas saudades estranhas. Os dois anos que já se passaram desde o meu retorno parecem dois dias, dado o frescor e sinestesia das memórias. E, ao mesmo tempo, sinto como se tivesse inventado tais memórias. Eu não estava feliz aí, meu amigo, mas eu faço soar como se houvesse estado.
Num sacudir de cabeça, essa sensação passou e eu entendi que não estava simplesmente lhe atiçando para ocupar o lugar do escriba que partia; eu precisava muito de alguém habitando aquela casa que falasse, ainda que eventualmente, a minha língua. Na hora que eu vi que eu era o último infante na batalha diária pelo valor de se contar uma boa história, eu quis reforços. E aí, eu automaticamente quis você e lhe mandei aquela mensagem. Por favor, me perdoe se revolvi suas questões e se minhas razões foram egoístas. Até o receber de sua carta estava tentando me iludir, jurando que na hora que escrevi aquelas palavras para você, eu estava tendo um pensamento transatlântico e que, instigado por essa telepatia, aquele “Tem vaga pra redator aqui, afim?” escorregou furtivamente pelos meus dedos alcançando o teclado.
(A boa nova é que já marquei a nova data para desbravar a Grande Maçã – parto no dia 2 de Janeiro. A brincadeira de aprender a escrever imagens começa dois dias depois. Você tem seis meses para avaliar com carinho a idéia de se juntar a mim nessa empreitada.)
Sobre São Paulo… Ah, São Paulo é tão possível quanto qualquer outra Cidade. Dias e noites, frios e calores. Romances que nunca duram, ou se eternizam. Carros blindados e mendigos. Homens bem e mal vestidos. Mulheres naturais e feitas em laboratório. Momentos em que a gente se sente tão em casa que quase se dissolve no ar. Outros, em que, de tamanha repulsa, mal conseguimos encostar os pés no chão ao levantar da cama.
Criei uns artifícios para que me doesse menos o processo de fixar raízes: arrumei a casa do meu jeito, providenciei prateleiras para os meus livros, adotei uma gata. Manipulei a atitude de viver – ou de achar que estou vivendo – para que na hora que o vento soprar eu tenha algo mais em que pensar além de nessa minha curiosidade infinita pelo mundo. E gastei uma fortuna num bom curso que me ensinasse coisas que eu quero saber e saciasse essa minha vontade de outras Cidades pelo menos por um tempo.
Devo lhe segredar algo: ando desconfiada que não existem várias Cidades, Breno. Ou que, se existem, cada ser humano tem a sua: única, pessoal e intransferível. Eu sou o código postal da Cidade que me habita, você o da sua.
Se elas forem realmente impossíveis, é possível que nós também sejamos.
Um beijo. Curta o verão por mim.
A.
6 commentsDHL
Ah, Breno…
Não sei bem se se fico triste ou feliz de que sua vinda seja passageira. Mas desejo que o sol da Bahia lhe colora a pele com a mesma intesidade das cores que percebo em suas frases tranquilas. Sei lá, acho que esse cara que me escreve não é mais aquele que beijava paredes. E sem café - aqueles de ontem e esses de hoje – eu nunca vou ter certeza. Não sei se fico feliz ou triste que você esteja de passagem porque não resolvi se prefiro a tangibilidade das xícaras ou a natureza aeriforme das palavras.
Tenho a impressão que estamos sentindo algo parecido e que nada tem a ver com a Cidade, seja ela qual for. Eu também sinto essa completude, essa posse de mim.
Não sei se fico feliz ou triste que ainda não seja dessa vez que vamos discutir as questões da alma com algumas doses de cachaça boa. Mas desejo que as Cidades tenham ainda muitas coreografias para lhe seduzir.
Beijinhos,
Ana
Ps: Quem sabe não tomamos um pint de Hooegarten no próximo verão?
5 commentsSedex 10
um sorriso brotou na minha cara quando eu li que você volta. Mesmo sem saber se essa era mais uma de suas ficções verdadeiras.
Espero você na Paulicéia. Não me esqueci que lhe devo um café.
Beijos
Ana
Post-it
descendo do telhado do prédio onde eu fumei um cigarro ao sol – apenas um apesar da vontade de maço inteiro – lembrei-me de lhe dizer que solidarizo com sua dor de escriba e com a revolta com os telefones de mau timming. Eles também tocam aqui from time to time pra insinuar que eu ainda tenho escolha.
Estive com o livro que você me deu nas mãos na hora do almoço. Sim, eu estou economizando o livro. Li um conto. E cada conto que eu leio me faz acreditar que eu amo um amor pra lá de clichê. E que existem muitas pessoas que conseguem ser ainda mais clichê que eu.
Não sei se beijar mais que escrevemos seria assim bom.
Talvez, devêssemos começar a beijar como.
Beijos,
A.
Sedex 10
Ai Breno…
Sua carta me pegou de surpresa. Chegou intempestiva e com uma sinceridade dolorosa que me fez pensar no quanto eu mereço lhe ver assim, de alma nua, quando nos privei de tantos possíveis cafés onde essas coisas relativas ao amor poderiam ter sidos discutidas mais aprazivelmente. São muitos os dias em que eu me vejo relembrando cenas londrinas e uma delas é sempre eu atendendo um telefonema seu ao descer as escadas para a estação Hyde Park. Dizendo hoje não dá e permitindo o espírito prefir o cansaço à vontade de dançar.
Eu sei sim dos romances aos quais você se refere. Não vejo bem como fraqueza, mas às vezes não resisto à idéia de maldição. Não sei se você tem disso também, mas não são raras as situações em que eu me pego pensando bastante sentida em como se eu sou assim tão foda como dizem, nenhum deles fica? Mas logo depois eu entendo que sou eu quem não os deixo ficar. Os amores inventados são mais bonitos, embora machuquem igual. E se a gente quiser, eles não precisam ter fim.
Me surpreende que você se sinta derrotado, logo você que vai vencendo a Cidade à unha. Não desistir já é uma vitória. Eu admiro seus papers, suas palavras e cada dia que você contabiliza. Queria ter tido a sua força.
Curioso como eu dou uma impressão errônea de mim no que eu escrevo. Acho que essa sensação de força vem da minha sinceridade, mas ela é defesa. É uma esperança boba de que sabendo como eu me sinto ninguém me machuque. Não dá muito certo, as pessoas gostam de cortar o rabinho da lagartixa pra ver se ele se mexe sozinho de verdade. A curiosidade acaba sendo, quase sempre, maior que a misericórdia (Sobre meus olhos, deixo Erikah Badu falar por mim. Procure pela canção chamada Green Eyes, ok?) Engraçado como as suas personas e o meu eu escancarado nos levam ao mesmo espaço ocupado pelo nada. Isso se minha sinceridade não for também uma persona.
Entendo também muito bem o que você fala sobre os romances, os escritos, digo. Os escritos por nós. Lembra daquelas 3 páginas que lhe mandei? Pois é. Vitória Régia continua lá congelada com o telefone na mão. Nós não somos mais a mesma pessoa e agora eu não sei o que fazer com ela.
Confesso que fiquei com uma certa dó quando li o comentário que você me deixou. Fiquei me sentindo como se tivesse sem querer cravado o dedo numa ferida sua ao expôr as minhas. Rascunhei várias cartas, mas não soube como lhe dizer que no final das contas, o amor dos livros é ganhar na roleta apostando em um só numero. Na vida real, é hábito, tolerância, rotina. E me incomoda que na prática o amor pareça muito chato. Aí, eu invento, nós inventamos. E é nessa que nos entregamos às paixões, procurando uma alquimia que as torne isso que buscamos. Minhas fórmulas sempre explodem: eu saio queimada, e os caras fugidos. Não sei como andam as suas, mas se um dia funcionarem, espero que você me passe a receita.
Sentir-se especial é só uma questão de abrir os olhos quando na frente dos espelhos bons.(Serão os espelhos ou nossos olhos que nos distorcem?). Eu acho que você topou com um dos bons e ele lhe mostrou esse menino. Esse menino não tinha todas essas marcas e sorria.
Não acho mesmo que você esteja andando para trás. Nem assim tão perdido quanto pensa. Minha experiência diz que todas as vezes que nos esforçamos para sermos maduros acabamos soando forçados, distantes, frios e infantis. A maturidade deve ser espontânea, acho. Não tenho certeza sobre isso.
Ver e viver será sempre um prazer entristecedor. É penosa essa certeza de que nunca seremos capazes de provar – e comprovar – tudo. Fiquei pensando na frase de Camile Claudel esses dias, define bem o que eu sinto. E me ocorreu que essa ausência não é como uma úlcera que possa ser cauterizada e cicatrizar. Na nossa alma, Breno, mora um buraco negro faminto, que vai sugando tudo que a gente vê, conhece, prova e sente. O que a gente vive desaparece dentro dele e a fome nunca é saciada. Mas a gente tem opção: podemos procurar novas fontes ou simplesmente relaxar e deixar que ele nos sugue nos virando do avesso.
Vai, Breno. Liberta esse menino. Adoça esse adulto! Eu também não me lembro de como eu era antes do mundo grudar em mim mas, ainda assim,tenho certeza que hoje nós somos mais bonitos e mais completos apesar de todo esse vazio.
A gente sempre pode escolher como chamar essas marcas que carregamos, amigo. Só quem as têm pode se dar ao luxo de um dia fazer drama chamando de cicatrizes. E noutro posar de cool dizendo que são tatuagens.
Ah Breno, temos tanto repertório. Poderíamos ser qualquer coisa!
Por que caralho então a gente nunca decide ser feliz?!!!
No commentsA questão do livro que o Rapaz de All Star Azul me deu
O dia começou às dezessete horas e trinta e um minutos. Primeiro um bocejo e depois checar os e-mails – como se alguém fosse mandar e-mails num sábado. Pois é. Alguém havia mandado. Alguém me pedia perdão pelas palavras agressivas ditas há mais de seis meses. Não queria me ofender. Ele tem ciúme e ainda me ama. Eu morro de pena e preciso de um banho. Meus cabelos estão desalinhados e eu cheiro a minha própria baba. Não vou responder, como de costume.
Convenço minha amiga a sair para comer uma pizza. E a gente fala de assuntos novos e velhas mazelas. Ela acha que eu devia escrever um livro sobre os meus amores tortos. Ela acha que eu atraio loucos, enquanto eu acredito que sou eu quem os procuro. Eu gosto de pepperoni, ela de frango com catupiry. E a moça de preto na mesa da esquerda insiste em flertar comigo para meu desânimo. Lembro de uma frase de outra amiga, e rio. Ela diria: Linda, eu gosto é de pau no útero. Certas frases são de uma sinceridade tão ruborizante, que não tenho coragem de dizer. Baixo a cabeça, e deixo minha opção sexual implícita no gesto.
No caminho de volta para casa, um garoto de programa me pede um cigarro. Eu não tenho, mas lhe ofereço um pedaço de brownie, que ele educadamente recusa. Logo depois, ele entra em algum carrão prateado e desaparece. Eu desço a ladeira, eu toco a campainha e o porteiro abre o portão. Eu subo de escadas e abro a porta. Eu tenho trabalho a fazer, mas não sei como. Eu tenho vontade de ligar e pedir a companhia que eu queria agora.
Mas aí chega outro e-mail, naquela maldita língua sedutora. Eu deleto sem ler para não cair outra vez na tentação de me permitir ser amada sem amor para dar em troca.
Desligo o computador. Não há nada que preste na televisão. O título do Carver que o Breno me mandou parece uma pergunta:
-Sobre o que a gente fala quando fala de amor?
Recupero da lixeira o e-mail, só para descobrir que eu não sei. E que talvez nunca vá saber. Não porque não exista uma resposta, certamente há e talvez ela seja simples. Mas eu tenho medo de acabar descobrindo que amor nada mais é do que o nome genérico para um bouquet de outros sentimentos menores, e concluir que o amor, em si, simplesmente não é. Ele não é um ente. Ele não existe.
Saber desmistifica as coisas, inclusive o amor.
E quando se trata de amor, eu ainda prefiro o mito.
DHL
Conversava com um amigo escocês, quando ele me interrompeu no meio de uma frase dizendo “sorry, I gotta go sleep. it’s 1 a.m. happy valentines, sweetheart!” Eu respondi aquele “happy valentines, huni” automático, resgatando um sotaque que não demora muito, eu perco. Foi quando, de súbito, percebi que pensava em você. Em como será que a Cidade vai tratar você amanhã (aqui ainda são 11:35) de manhã.
Irá ela lhe dar um dusk menos frio e um despertar com gosto de capuccino do Starbucks? Estará em Picadilly Circus, a moça coreana cantando macio para lhe afagar os ouvidos ou, em Euston, o acordeón do argentino soando um tango allegro para apressar seu coração?
Acabei torcendo para que você passe o dia muito concentrado nos seus papers. Muito busy like hell. Extremamente on a hurry. Fiquei lembrando de outros valentines nem tão funny, e lhe desejei uma menina linda que segure a sua mão no cinema e reclame do sotaque da Fernanda Montenegro. E um jantar honesto para variar do tuna sandwich. E um descer de escadarias esbaforido arrastado pela mochila. E dois lugares vagos naquele último trem, aquele decorado com gente kitsch e movido a love bubbles and sighs.
Foi pensando no trem, neste mesmo trem que ano passado me levou os últimos brios e o tesão pela Cidade, que me veio o impulso de lhe mandar este pacote, que eu espero muito que chegue a tempo. No frasco metálico, com cheiro de Irn-Bru e cor de Ribena, vai um velho elixir de família que serve para embriagar a razão e dar coragem de libertar a alma.
Beba um gole caso a coreana esteja rouca, ou se esgotem os bilhetes para o cinema. Caso você tenha que viajar de pé, ou se pegue misturando maionese com atum.
Beba um gole se a noite estiver fria demais, se você precisar de meias. Ou se o sono, simplesmente, não vier.
E vire sem dó o frasco todo goela abaixo, se você sentir muita vontade de comprar um balão metálico em forma de coração e presentear alguém.
Happy Valentines, ma friend!
Luv,
Ana