Archive for the 'Confissões' Category

Sobre medos e movimentos

Devo-lhe dizer que eu não sou uma pessoa dotada de muita paciência. Talvez em algum momento tenha sido, mas, se fui, isso é algo que se perdeu nas intempéries dessa vida. Eu tenho muita ansiedade. Uma pressa que me faz as pernas trôpegas e uma sede de goladas largas que sempre me leva ao engasgo. Eu não sei aguardar os tempo das coisas. Eu colho os frutos ainda verdes. Eu  leio a última página dos livros antes da primeira. Escrevo poemas que sempre começam pelo verso final. Eu tenho essa pretensão de sempre saber como tudo termina e essa compulsão por construir meios e inícios que façam parecer que valeu a pena.

Devo-lhe dizer que estou com medo. Medo de não saber me portar. Medo de não saber esperar.  Medo de que não haja no fundo nada a aguardar. Medo das peças que minha mente dada a fantasias possa me pregar. Medo, eu devo lhe dizer que estou morta de medo.

Mas também lhe devo segredar que é um medo muito gostoso pois tem gosto de vida.

(E o bom dos medos saborosos é que eles assustam mas nunca imobilizam.)

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Pensamentos Desconexos

Há dias em que eu sou o vento. Noutros vela e o timão. Há dias em que sou os três; nesses, eu sempre entendo o propósito das âncoras

Nem toda fuga é garantia de libertação.

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Meus olhos ficam cinza quando chove

(Carta a um amigo que a vida dissolveu – Novembro,2003)

Ah sim, amigo, você está sempre coberto de razão quando me fala da minha solidão. Sim, às vezes eu sou esse vazio que você vê. Seus olhos não se iludem com a minha pose; nunca. E assim, com esse seu distanciamento acadêmico, você enxerga uma lacuna que, ao contrário de outros entendidos de mim, não lhe parece começar no espaço circunscrito ao buraco que há entre as minhas pernas. Talvez termine ali. Começar, no seu entendimento, nunca. Nem no meu.

Minha dor ebule lá de dentro, num oco que fica entre os ossos do tórax, encaixado nos pulmões. E é por isso que tem horas que me falta o ar. Respiro mal faz tempo. Tenho umas vertigens loucas quando o sangue me ferve, e você sabe, porque meio lastimando meio escandalizado, você viu. E notou que eu sei bem engolir as lágrimas, que eu sei sorrir na adversidade. Eu aprendi tantas coisas nos últimos anos, não foi?

Cinismo, eu aprendi o cinismo. Um cinismo tão bem elaborado que ficou natural. Eu gosto de me sentir acima disso tudo. Mas me mata, e sei que você sabe porque eu sei que você me ama desse único amor verdadeiro que é o amor fraternal e eu percebo nos seus olhos esse amor quando eles me censuram por eu merecer mais que isso. Nem sempre a gente quer o que merece. Devia, mas nem sempre a gente quer o que merece.

Se eu fosse querer o que eu mereço (ou acho que mereço) eu ia querer tanta coisa! Eu acho que eu mereço muito. Mas eu só quero o que eu quero. E se eu mereço mais do que eu quero e o que eu quero é menos do que eu mereço, me parece tudo deveria ser mais fácil mais, como se eu merecesse um milhão e só quisesse cem. Números são sempre tão simples. Números são ou não são. Pessoas são variáveis complexas, amigo. A gente acaba achando que entende mas nunca tem certeza. Pessoas são aquele x que vai de menos infinito a mais infinito. É difícil ser gente na maior parte do tempo. Mais difícil ainda é ser humano.

A humanidade é a certeza da imperfeição, uma consciência de não ter nada sob controle. O que você viu quando meus olhos umideceram sob as lentes, foi só a minha humanidade se manifestando, precipitando.

Eu ainda sou um ser humano um pouco mais suscetível que você, porque eu tenho em mim poesia demais. A poesia em excesso faz mal a saúde porque o poeta não se satisfaz em ser humano, ele quer não ter o sentimento, mas ser. E ser o sentimento é sofrer das mazelas que a humanidade nos impões duas vezes. E ser poeta não é uma escolha, a gente nasce assim, com um olho meio cor de rosa ou cinzento. Eu vejo cor-de-rosa, e no meu mundo cor-de-rosa, ainda vai chegar o dia em que vão trazer flores para mim. O problema é o muro, amigo. Pois existe um muro entre as cores do dia-a-dia e as cores da poesia. E eu já não sei quando posso transpô-lo.

Meus dias de solidão são na verdade esse outro lado do muro, o lado em três cores. Esse abismo sobre o qual eu balanço os pés agora. Eu vejo tudo, amigo, eu vejo tudo lá em baixo. Mas se eu pular para o lado de lá, eu não volto para o lado de cá, porque a poesia é um muro baixo, e a verdade é bem mais profunda, é um poço de águas turvas. A realidade é sempre tão assustadora que é difícil de mergulhar…

Não tenha pena de mim. Não tema por mim. Eu não sou mais triste nem mais feliz que ninguém. Eu oscilo. Eu oscilo como oscila todo ser humano: ora cansaço, ora euforia.Também não acredite que eu vivo vazia por não saber materializar o amor. Eu tenho um mundo de amor latente em mim que é o que preenche, que é muito mais amor que se pode imaginar caber no meu corpo pequeno.

Eu levo em mim um rio bravo e caudaloso, que ainda não encontrou a sua foz.

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1 xícara e 1/2 de açúcar

Com frequência, minha frustração se manifesta na forma de uma incansável rabugice. E eu continuava resmungando. Talvez porque quisesse algum endosso ou consolo, talvez para amenizar a sensação de derrota que eu sentia no momento. Ou talvez eu inconscientemente quisesse testar seu limite. Foi então que, provavelmente de saco cheio da minha ladainha, ele virou o queixo abruptamente por cima do ombro e me olhando de esgueira disse, “Ana mas você sabe que você é…”

Sim, eu sei…

Eu sei que é preciso descalçar as ferraduras, vestir as luvas de pelica e aprender a me calar. Sim, eu reconheço que a voz da minha insegurança é áspera e diz coisas torpes. Sim, eu sei que é imperativo que os medos fiquem nas gavetas de chave da alma trancafiados com todos os meus traumas. É preciso enterrá-los n’algum lugar bem obscuro e depois jogar a chave fora.

Sim, eu sei que é urgente baixar a guarda e podar os espinhos. Para tudo, para a vida. Colocar nessa acidez ancestral aquela xícara e meia de açúcar que torna qualquer presença mais palatável e – porque não? – eventualmente voltar a ser uma criatura constantemente aprazível.

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Turbo

Parecerá sempre com uma grande aventura pois essa é a imagem que eu quero – preciso? – criar na imaginação de quem escuta minhas histórias. Eu sempre pareço mais bonita na imagem criada pela audiência. E, acredite, é tão fácil distorcer discretamente tudo e fazer do medo, a coragem. Da confusão, a certeza. Da solidão, a liberdade. Do outro lado da rua, o Mundo.

Ponho o pé na estrada para saciar a minha sede infinita de culturas e paisagens. Atiro-me feliz, depois visto a armadura do relato. Farto-me de novos e velhos ares e seleciono cuidadosamente as sensações. Aí, eu conto. Conto porque contar é uma forma de reviver e enxergar sob novos ângulos a experiência.

Conto também – como negar?- porque contar é uma forma de ter meu ego eventualmente acariciado. Embora perigoso, a vaidade é um combustível eficiente para nos fazer seguir adiante. Conto para, desavergonhadamente, valer-me do seu poder de propulsão.

E assim, vou curando minha estagnação com outros fusos; esses remediozinhos caros, mas de gosto muito bom.

(Praga, 18/03/2011)

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Bloco do eu sozinho

Estou fazendo confete de mim, picadinho de tudo isso que eu não gosto em mim para jogar para cima, em catarse. E liberta, enfim, alegrar-me novamente com a folia de todas as coisas singelas da vida. Quero me desenrolar e rodopiar por aí lépida como uma serpentina multicor.

Uns colocam o bloco na rua e fingem que nem é com eles e sentem que a vida se torna automaticamente mais leve e anárquica no repicar do primeiro tamborim. Esses fazem xixi no chão. Outros reclamam do barulho e correm para a janela para fazer muxoxo. Esses assistem o desfile das Escolas de Samba pela televisão.

Eu nego minhas origens e coloco meu bloco no mundo para ver de longe tudo aquilo que me intimida: eu solto a franga e me reinvento.

(Já fiz muitas vezes: funciona. Mas o curioso é que com a idade, a auto-reinvenção vai ficando difícil, tão difícil quanto aprender a plantar bananeira ou perder dois quilos em uma semana)

Já deu de isolamento e auto-flagelação. Eu sei porque, de repente, eu lamentei profundamente viajar só.

E isso nunca tinha acontecido antes.

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