Archive for the 'Contos' Category
Com lápis e borracha
Escrevi umas linhas. E elas eram tanta verdade que decidi que podia poupar as pessoas do incômodo de vê-las ditas.
Apaguei tudo e menti de levinho. Sem culpa nem ressentimento.
Menti com a cara mais lavada do mundo, para manter os eu amo de coração aquecido e aconchegadamente ignorantes.
1 commentFogo Manso
A pedra esfregou na rodinha metálica e o isqueiro acendeu de primeira. A chama, então, queimou vagarosamente a ponta do cigarrinho slim. Dei um trago demorado. E foi a primeira vez em meses que eu acendi um cigarro com a sincera intenção de desgustá-lo. Fumar sempre fora uma válvula de escape. A chaminé imaginária para liberar a pressão da vida a comprimir o meu espírito.
Era assim: eu acendia o cigarro com as mãos sempre trêmulas. Às vezes perdia o controle e os fósforos se acabavam pelo chão. Eu tentava apaziguar meus dilemas no crepitar da brasa; aspirava a fumaça tóxica e me intoxicava. Daí soltava uma baforada, soprava a ansiedade para fora do corpo e deixava as cinzas pelo chão. Voltava a mim na ilusão de ter-me carbonizado os problemas. Normalmente eles ainda estavam lá fazendo pouco da minha inocência.
Não sei ao certo o que me deu de colocar o maço na mochila. De catar com as pontas dos dedos o rolinho magricela e colocá-lo sedutoramente entre os lábios. Surpreendo-me com minhas próprias pantomimas. Conto-me que mudei nesses gestos que ninguém percebe e que nem sempre eu compreendo.
Diferente do habitual, hoje, engolir a fumaça e deixá-la corromper os meus pulmões nada mais era que um momento masturbatório e delicadamente masoquista; o prazer de dolorosamente existir sem maiores consequências; de desperdiçar longos minutos soprando argolas etéreas pelo ar. De debruçar-me na sacada e permitir à brisa úmida dos trópicos beijar por alguns instantes a pele tépida dos meus braços nus.
No commentsVisitas Dominicais
Uma esperança voou verdinha janela a dentro. Girou umas 3 vezes em volta da luminária e pousou na parede vermelha. Psiquê deu dois miados desafinados como sempre faz toda vez que vê qualquer bichinho voador. Daí pulou na mesa, e da mesa na prateleira. Se esticou toda e tocou a pata no inseto que rapidamente tratou de bater as asas e pousar em um lugar onde não pudesse ser alcançado. Ela ainda pulou mais umas duas ou três vezes, até que desistiu e foi dormir.
Parece que a esperança também se aboletou lá no alto. Ali estacionou, indiferente à luz, à mim e à madrugada fria que invadia a casa pela fresta da janela. Achei que iria embora logo, mas não.
Ela ficou ali para me lembrar que apesar dos domingos funestos é preciso continuar acreditando em boas segundas-feiras.
1 commentVinícius.
Vinícius tinha nome de poeta e comia poesia. Mas nunca cospia. Ficava ali digerindo os versos alheios e desvendando as mais variadas figuras de linguagem escondidas numa infinidade de rimas. No fundo, Vinícius era uma espécie de boi lírico; ele ruminava, ruminava, ruminava, decorava o gosto dos versos e depois engolia sem a chance de descrever o sabor para ninguém. Às vezes acontece disso de saber, entender e vislumbrar uma coisa e ainda assim, ser completamente incapaz de executá-la com um mínimo de destreza.
E era só por isso que eu guardava no bolso sem ler todos os papeizinhos que ele me entregava por debaixo da mesa do refeitório durante o café da manhã: não queria, tomada de aflição, ver-me retificar seus versinhos de pé-quebrado e dar ao seu sentimento pernas mecânicas. A verdade é que era delicado ver aquele sentimento todo escorrer coxo pela esferográfica verde e se transformar num discurso atabalhoado, tedioso e pueril.
Aconteceu que um dia Vinícius não me passou nenhum versinho por debaixo da mesa. Em vez disso, ficou ali calado, respirando profundamente aquele ar viciado, empestado de manteiga e café fraco. Ficou ali me olhando uns longos minutos até que aproximando muito seus lábios de minha orelha esquerda, sussurrou:
-Melina, a tristeza não tem fim.
Então, desliguei-me do ir e vir das formigas no açucareiro e olhando bem fundo nos olhos segredei:
-Mas tem longas pausas.
E nesse dia, Vinícius compôs uma melodia belíssima que ninguém jamais conseguiu letrar.
Verão
O ar invasivo dilata os poros. O suor brota nas têmporas, passeando pela nuca. Contorna as saboneteiras e sublima antes de morrer no vale do entre-peitos. O problema é a estação e suas texturas. Suas cores e cheiros fortes. Sejamos justos; não precisa nem mar, nem canela. Não precisa os cravos nem as pétalas de girassol. A temperatura sobe naturalmente. Então corpo fraqueja e se entrega quando o sangue ebule.
Não existe fuga. Ninguém pode escapar. Não adianta se esconder ou se furtar. A reação já começou. De agora, todas as luas serão de Lúcia e todas as noites serão do Boto. Até que os vapores tóxicos se dissipem e os corpos ávidos novamente se recolham em hibernação.
1 commentDoriana
Doriana alongou-se elevando os braços, depois inclinou-se para frente com os joelhos bem esticados e colocou as mãos próximas aos pés. A grama estava úmida do orvalho e cheirava a chá, e isso fez com que ela sorrisse e catasse uma pedrinha do chão.
A pedrinha , lançada num movimento de sua mão, quicou três vezes no espelho d’ água do lago, serelepe como criança miúda. Doriana inventou que ela afundaria devagar pois era uma pedrinha muito delicada . E a delicadeza nunca deveria sucumbir à qualquer força do universo, nem mesmo à gravidade dos corpos.
De olhos fechados, ela ia imaginando a pedrinha afundar como uma pena que plana displicentemente ao sabor do vento e o olhar extasiado dos peixes. Via as algas acariciando sua superfície, beijando sua pele clara polida pelos atritos da vida.
No pensamento da menina, a pedrinha repousaria para sempre num colchão de musgo macio, bem quietinha no fundo do lago, imersa em beleza, em silêncio. Alheia a todas as questões chatíssimas do mundo.
Fazia muito calor, o ar se movia em rajadas frescas e alegres brincando com fiapos do meu cabelo. Um cachorro, que não era meu, brincava com o cordão dos meus sapatos e fazer-lhe uma festa acabou sendo um descuido sem precedentes.
Impotente, eu ainda tentei agarrar Doriana pela barra da saia e avisar que às vezes a vida é água turva, que às vezes a vida é água fria.
Como se houvesse jeito de segurar alguém que decide mergulhar.
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