Archive for the 'Idas e Vindas' Category

Pensamentos, café e shortcake

É um misto de nostalgia, vontade e consciência da mudança. Há 5 anos eu vivia nessas mesmas terras e desfrutava dessa mesma paz. E não era que eu me conformasse: eu tento, mas eu nunca me conformo. Apenas, as ingresias dessa vida eram outras, quase sempre tão serenas que simplesmente passavam despercebidas. É curioso como aqui a vida passa discretamente, com hora marcada e sem maiores atrasos – não que os atrasos sejam um problema. Perder as rédeas da vida, aqui, é uma desatenção menor. Se a corda escapole da mão, nos damos conta sobressaltados e apressamos desnecessariamente o passo; a vida, preguiçosa, ao se dar conta de que não a conseguimos acompanhar, senta, pacientemente nos aguarda e tem sempre um sorriso caloroso para o momento do reencontro.

Muitos deles, possivelmente, nunca viveram em outro ritmo, por isso consideram-se terrivelmente atribulados. É uma inocência tão graciosa que não tenho vontade de dizer que eles de nada sabem. Controlo minha eterna ânsia de honestidade e sigo atuando, alternando expressões de empatia e comiseração.

Talvez se aborrecessem comigo se pudessem entender minhas palavras. Talvez não fossem perceber o tanto de admiração com que escrevo cada uma delas. Eles VIVEM. E eu quase sinto inveja desse viver desacelerado, indolente, que não nutre grandes expectativas e por isso, raramente, decepciona.

Não sei.. talvez, com tantos castelos, se sintam todos um tanto nobres. Houve um momento em que eu também me senti princesa. Acho que me sinto um tanto princesa agora mesmo; a princesa do Reino do Café Quente e do Shortcake. A princesa que desbrava castelos para encontrar as chaves da torre de si mesma, a torre onde ela mesma um dia se encarcerou. A torre de onde ela escuta, ao longe, os acordes de uma canção celta. De onde escreve essas palavras apertando os olhos para enxergar melhor. Para não sonhar. Para não chorar.

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Graham St. Station – 2:31 p.m

É curioso, pois estar fora traz a sensação de poder-se recomeçar do zero e do zero ser exatamente o ponto onde eu estou – sem retrocessos nem remorsos, portanto. Sinto-me reiniciando, apesar da certeza do meu retorno. Não há dúvidas de que eu volto na data combinada mas, ainda assim, vez ou outra me corre um daqueles arrepios na espinha que me acometem toda vez que algo inesperado está prestes a acontecer e mudar completamente o rumo tranquilo das coisas já encaminhadas na minha vida. Não sei se é destino ou maldição, mas eu nunca resisto aos atalhos. Eu não respeito as portas marcadas com “staff only”. Haverá qualquer surpresa me aguardando em casa? Levarei a surpresa na bagagem? Não sei. Apenas sinto em minha alma sua iminência e me concentro em controlar as expectativas. As expectativas têm um poder malígno de arruinar os gracejos do destino e o ser humano tem essa vocação natural para a decepção. Decepciono-me com frequência, por isso evito as expectativas; para amenizar os revezes da minha humanidade.

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Correspondência Violada

Querido Marcio,

Um belo dia , tomei a ponte aérea para ir te ver. Era um vôo desses promocionais. Sabe, como são esses vôos, não é? Cheios de escalas. Primeiro ele parou em Paris, reabasteceu e foi pra Genova e de Genova para Milão. E aí, voltou ao Rio. Pensei em desembarcar, mas quando soltei o cinto ele decolou para Lisboa e de lá pra Londes e de lá pra Glasgow e de lá para Paris e Londres de novo e Buenos Aires e Rio. Chamei a comissária e perguntei: que porra é essa? Primeiro me disse q ficamos sem teto, depois culpou os controladores de vôo. E me deu uma garrafinha de água e uma barra de cereal.

E o avião partiu e depois de duas horas eu vi São Paulo passando por nos lá em baixo. Hey, hey, piloto !!!! Meu ponto é aqui!!!!

Bem amigo, as pistas de Congonhas estão em obra. Pousamos em outro lugar. Saltei correndo sem nem pegar a bagagem antes que essa nave louca me levasse outra vez.. Chego sem dinheiro nem presentes. Com a roupa do corpo e uma alegria de quem tem sonhos novinhos em folha.

Posso te pedir uma ajuda? Preciso que você me prepare um chá de capim limão e mel bem quente pra me livrar de uns velhos males que eu vinha inspirando.

E que me explique porque a gente precisa ir tão longe pra descobrir que, talvez, a Liberdade fique logo ali na casa do lado.

Beijos
Ana

Ps: eu adoro suposições otimistas. e você?
Ps2: te ligo assim q comprar um celular paulistano! prometo ser breve!

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Brazil

Não sei que nome dar a essa sensação de não mais pertencer.

Eu não pertenço a esse chão, a esse calor, a esse ar pegajoso grudado na minha pele. Eu não pertenço a essa cor nas pessoas nem a esse cheiro que emana de seus corpos.

Esses tons, não são mais meus. Encantam-me, mas não reconheço esses sons.

Eu estou feliz, extremamente feliz.

Não me sinto em casa.
Não me sinto familiar.

A rotina já não me desfoca o olhar.

Deslumbro-me com o exótico.

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Correspondência Violada

Querido Marcio,

Já fui melhor nessa coisa de escrever cartas. Não sei se estou perdendo o traquejo ou se a preguiça tem sido maior. Ou se eu já me sinto tão parte desse lugarzinho lento que acabo acreditando que não há novidade. Talvez, tenha cegado, em fim, para as coisas bobas e cheias de significado. Mas há esperança, amigo: o vento sacode as janelas e o cinco graus durante a caminhada noturna de ontem me lembrava que em breve as tulipas invadirão todosos canteiro. Sinto pena que lhes falte o perfume.

Tem dias que me sinto como no filme, que me sinto em Tóquio (mas sem a sua companhia). Mas tem dias também que me serve rir da rotina. Hoje, por exemplo, e sábado e eu estou de folga. Podia acordar tarde, mas meus olhosse abriram as seis e quarenta e três com o click do interruptor no banheiro. Eu não tentei dormir de novo. Fiquei rindo dos hábitos do meu vizinho. Ele liga a torneira, depois faz barulho de fazer barba, assoa o nariz com força. Depois vem um longo silencio e a descarga. Ai ele sai do banheiro e volta em segundos. Liga o chuveiro. Desliga em 10 minutos. Coloca spray de baunilha no ar e apaga a luz com um novo click. E esse éo sinal de que eu posso tomar banho, finalmente. Todos os dias,a mesma coisa nos últimos 4 meses.

Hoje vou a Glasgow, comprar lembrancinhas para minha sobrinha e chorar diante de todos os cartazes de concertos que eu não vou assistir. Glasgow é traiçoeira, parece que dorme sempre, mas ebule em silencio. Dizem que Edimburgo e muito mais bela e muito mais sincera. Faço planos. As pessoas falam com um sotaque de Trainspotting.
Aye, ele falam um dileto curioso.

Esta carta está se alongando, não quero cansar seus olhos pequenos, amigo. Mas andei pensando na vida, pensando na vida aqui, aí, em mudanças. Recebi um telefonema esses dias daqueles que fazer a gente ter certeza de que nada épra sempre. E é assim que eu respondo aos meus colegas quando falo que estou contando os dias para ir para casa e eles me perguntam: for good? Pra sempre é uma expressão que faz tempo perdeu o sentido pra mim. Eles não alcançam.

Aqui, para essa gente, tudo é para sempre Marcio, tudo. Tudo é plástico, fixo e imutável.

Tudo menos nós, os estrangeiros, que chegamos aqui, nos enchemos de comiseração, ganhamos uma graninha e caímos fora rápido, antes que os cães, as flores, e os lovely days nos contaminem. Antes que todos os trens parem ou todos os cheap flights fiquem caros demais. Antes que os velhinhas nos ganhem com suas scotish pies e cookies e fudges pelo estomago. Antes de comprar um carro velho. Antes de se apaixonar. Antes de ser envolvido pelas canduras do lugar e começar a achar que para sempre e algo muito natural.

Marcio, para sempre é uma pena que ninguém devia ter que pagar.

(Chego em sampa dia 11 de novembro! Prepare o sorvete de pistache!)

Ana

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Fotos

Não espero que nenhum de vocês entenda minha emoção. Vocês estão sempre certos com seus pés amarrados no chão e nas suas racionalidades cotidianas. As cores do mundo para vocês são sempre as mesmas ainda que existam outras tantas cores anônimas a serem pintadas. O azul será sempre seguro enquanto for azul, e o vermelho vermelho e todas as outras cores com nomes de frutas ou de coisas serão também inteligíveis enquanto puderem ser processadas por vocês nas suas tintas de parede e canetas hidrográficas de seus filhos.

Não espero mesmo que compreendam a minha necessidade de ser plenamente ignorante sobre tudo, até mesmo sobre as coisas que eu já sei muito bem. Eu quero sim cavucar as razões mais escondidas de todas as coisas singelas mesmo que elas não correspondam às minhas expectativas ou que eu ainda seja muito inocente ou muito concreta para entendê-las. Eu me sinto feliz em dizer: isso aí, eu não sei ainda.

Não, eu não espero que vocês entendam minhas lágrimas diante da fotografia que me mostra o palácio de teto vermelho. Os longos jardins ora de densas neves ora de gramas muito verdes. A grande lanterna de cal e pedra beijando discretamente a beirada do mar.

Eu não pretendo que vocês percebam como eu que toda princesa quer um castelo e todo marujo busca um farol.

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