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Miss Zippo
É simples: pouco a pouco, eu me abandonei. E comigo, as velhas teimosias, os sonhos românticos que nunca passaram de suspiros entre um gole e outro. Entre um encontro e outro. De mim para os corpos sem sentido ocuparam minha cama sem deixar vestígios de sua passagem no colchão. Perdi o interesse pelas peles e seus atritos. Na consciência da improbabilidade do amor, os corpos se foram tornando artigos descartáveis. Assim, todos eles foram um tanto como aquelas bonecas de papel dos tempos de criança: a brincadeira sem conseqüências de despir depois vestir e enfim destiná-los ao esquecimento no fundo de um armário úmido que um dia seria tomado pelo mofo.
Eu amava me apaixonar. Eu gostava de me apaixonar duzentas vezes pela mesma pessoa e ao mesmo tempo por outras duzentas. Isso me movia, me enchia de energia. Mas, de repente, sem nenhuma razão aparente, perdi o gosto. E foi isso que eu tentei explicar quando ele surpreendentemente ressurgiu com todo seu arsenal de ardis me chamando de Miss Zippo:
“Ah, Jay… os dias de Miss Zippo há muito se foram. É que as centelhas andam raras e eu já me desperdicei demais por aí com desgraça pouca. Aquela paixão que corria bolente nas minhas veias tornou-se um combustível escasso e como já não sou tão jovem, era urgente começar a economizá-lo. Sabe, quando acesa, não tem vento nem tempestade que me apague a chama – isso não mudou. Mas lhe devo dizer que já não é qualquer fagulha que me inflama…”
3 commentsVinícius.
Vinícius tinha nome de poeta e comia poesia. Mas nunca cospia. Ficava ali digerindo os versos alheios e desvendando as mais variadas figuras de linguagem escondidas numa infinidade de rimas. No fundo, Vinícius era uma espécie de boi lírico; ele ruminava, ruminava, ruminava, decorava o gosto dos versos e depois engolia sem a chance de descrever o sabor para ninguém. Às vezes acontece disso de saber, entender e vislumbrar uma coisa e ainda assim, ser completamente incapaz de executá-la com um mínimo de destreza.
E era só por isso que eu guardava no bolso sem ler todos os papeizinhos que ele me entregava por debaixo da mesa do refeitório durante o café da manhã: não queria, tomada de aflição, ver-me retificar seus versinhos de pé-quebrado e dar ao seu sentimento pernas mecânicas. A verdade é que era delicado ver aquele sentimento todo escorrer coxo pela esferográfica verde e se transformar num discurso atabalhoado, tedioso e pueril.
Aconteceu que um dia Vinícius não me passou nenhum versinho por debaixo da mesa. Em vez disso, ficou ali calado, respirando profundamente aquele ar viciado, empestado de manteiga e café fraco. Ficou ali me olhando uns longos minutos até que aproximando muito seus lábios de minha orelha esquerda, sussurrou:
-Melina, a tristeza não tem fim.
Então, desliguei-me do ir e vir das formigas no açucareiro e olhando bem fundo nos olhos segredei:
-Mas tem longas pausas.
E nesse dia, Vinícius compôs uma melodia belíssima que ninguém jamais conseguiu letrar.
Ella
Eu a venero
pela sua força.
Eu a julgo,
porque me assemelho
Infante na lida,
errante na vida.
Ella é comum
diante do espelho.
Musa
Ela é feliz.
Ela lhe ama.
Ela vem de trem.
Vem sem bagagem,
não traz tristezas.
Seu nome é Dulce.
E ela é um verso de amor.
Doriana
Doriana alongou-se elevando os braços, depois inclinou-se para frente com os joelhos bem esticados e colocou as mãos próximas aos pés. A grama estava úmida do orvalho e cheirava a chá, e isso fez com que ela sorrisse e catasse uma pedrinha do chão.
A pedrinha , lançada num movimento de sua mão, quicou três vezes no espelho d’ água do lago, serelepe como criança miúda. Doriana inventou que ela afundaria devagar pois era uma pedrinha muito delicada . E a delicadeza nunca deveria sucumbir à qualquer força do universo, nem mesmo à gravidade dos corpos.
De olhos fechados, ela ia imaginando a pedrinha afundar como uma pena que plana displicentemente ao sabor do vento e o olhar extasiado dos peixes. Via as algas acariciando sua superfície, beijando sua pele clara polida pelos atritos da vida.
No pensamento da menina, a pedrinha repousaria para sempre num colchão de musgo macio, bem quietinha no fundo do lago, imersa em beleza, em silêncio. Alheia a todas as questões chatíssimas do mundo.
Fazia muito calor, o ar se movia em rajadas frescas e alegres brincando com fiapos do meu cabelo. Um cachorro, que não era meu, brincava com o cordão dos meus sapatos e fazer-lhe uma festa acabou sendo um descuido sem precedentes.
Impotente, eu ainda tentei agarrar Doriana pela barra da saia e avisar que às vezes a vida é água turva, que às vezes a vida é água fria.
Como se houvesse jeito de segurar alguém que decide mergulhar.
2 commentsLauro
Sua presença era um souvenir de uma cidade bonita onde eu sei que nunca mais vou voltar.
No commentsAlikan
Ao vê-lo assim surpreendido, lembrei-me de um episódio que me aconteceu -ou talvez eu tenha só sonhado – em um dia muito chuvoso, numa tarde que era primavera, mas jamais se diria pois, do contrário, falava-se em neve, logo ali onde era raro o gelo: culpa de uma corrente quente que passava tão perto do litoral que era mesmo possível de se sentir seu hálito confortador beijar a face durante qualquer caminhada despretensiosa a beira-mar.
Tinha me coberto com casacos pesados e toucas e capuzes e enfrentava o vento do norte cheia de coragem, sem saber direito porque havia saído de casa em meio a intempérie e nem onde estava com a cabeça de não ter calçado um bom par de galochas. Ensopada e de pés congelados, sentei-me então no cais e fiquei procurando em vão as focas e as respostas quando ouvi um assobio conhecido.
Alikan, com as orelhas baixas, disse-me que estava de passagem. Que pensava estar na Irlanda. E eu lhe apontei a Irlanda do outro lado mas ele não podia ver, pois era muito densa a neblina. Ele se repetia: eu só vejo o mar.
Sentou-se então; o rabo alegre batendo compassado nas tábuas do cais apesar dos olhos tristes.
-Jura que eu não estou mesmo na Irlanda?
Sacudi negativamente a cabeça e ficamos num longo silêncio. E era só o zunido do vento, das ondas e das idéias.
E foi então que eu tomei coragem e falei:
-Alikan, lhe devo dizer alguma coisa…não sei se você percebeu, mas você é de pelúcia.
E seu rabinho ensopado, parou. Não havia mais chuva, nem vento, o céu abriu e a Irlanda nunca me tinha parecido tão próxima. Levantou-se, chacoalhou-se todo. Sorriu.
-Você tem certeza?
Fiz que sim arqueando as sobrancelhas.
-Mesmo?
-Mesmo.
-Então por que você não me abraça?
E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele já tinha se atirado no oceano e perdia-se a nado, no horizonte.
Eu? Eu caminhava tranqüilamente pisoteando meus tênis de palmilhas empapadas. Disfarçando os meus olhos cheios d’água.
No commentsSenhorita Margot
Primeiro eram as botas em que se tropeçar bloqueando a porta e a meia calça se equilibrando em cima da televisão. Depois, pouco a pouco, um copo de refrigerante pelo meio, ainda gelado, o copo marcado de um batom escuro e um cream cracker onde se deu somente uma mordida interrompida por enjôos e flagelos. Bijuterias dentro do cinzeiro, onde um cigarro queimou até o filtro e apagou. Uma lufada de suor concentrado e álcool.
A parede vermelha ainda sem quadros e um vinil de 78 rotações tocando em 33, canções de um cabaré imaginário onde ela era melindrosa, cantora e pianista. Onde ela fumava uma cigarrilha com lábios sugestivos e destruía corações e relações estáveis. Onde se pensava que ela dava enquanto, que tontos, ela só consumia ao seu bel prazer. Onde ela despia as tetas cantando com voz grave, depois se vestia e dizia não.
As chaves de casa, do carro. Sobre a pia, algodões pretos de olhos manchados de pranto e rímel. Um vidro de perfume no final, esmalte vermelho de secagem rápida, uma calcinha de algodão cor da pele gotejando na torneira do chuveiro. Shampoo para cabelos rebeldes, e sabonete de gengibre com vanilla. Toneladas de cabelos secos pelo chão atestando que aos poucos começa uma demolição.
O corpo embriagado de Margot sobre a cama, mais pálido, mais flácido, roncando baixinho pra provar que ela é humana. Uma pequena poça de saliva formando-se sob seus lábios que pendem abandonados sobre fronha, empestando o ambiente com um hálito agridoce e inundando os lençóis com existência.
Margot está muito cansada de ser o que ela é, sem ter escolha. Cansada de ter sempre que ter uma frase, um gesto, um argumento, os olhos vivazes. De ter sempre atitude. De despertar curiosidade, atração, tesão e medo.
O corpo nu de Margot, seus poros arrepiados e mamilos rijos, seus braços acolhendo o tronco um pouco de frio, outro tanto por instinto. Margot está sonhando o anti-sonho. Margot quer ser normal, andar de chinelos, esquecer de fazer as unhas, aprender a fazer bolo e ter um namorado meio feio com quem ela só faça sexo duas vezes por semana. Margot quer, às vezes, não saber as respostas. Quer ser beijada na testa. Margot quer ser protegida, mas ela, em vez de puxar o edredom, vai se encolhendo, encolhendo, defendendo o corpo com o próprio corpo tentando ignorar os pêlos eriçados pelo vento encanado da Avenida Paulista.
O arrepio da solidão que entra por uma fresta da janela, por debaixo das portas, e por um furinho na sua carapaça que leva direitinho na alma. A mesma alma que ela acredita que não tem, e por isso, nunca se preocupou em selar.
(publicado originalmente no Livinrooom a convite da Lívia Santana)
No commentsRafael e Beatriz.
Pecamos pela nossa displicência. Outrora, haveríamos nos diluído no dia-a-dia, em todos aqueles oks que dizemos sem sequer ter ouvido o que nos foi solicitado. Em todas aquelas tarefas executadas sem brilhantismo, porém com razoável eficiência. Fizesse eu a cama todos os dias do mesmo jeito, não largasse você restos nos pratos. Não tivesse eu trocado o perfume e você o pós-barba, continuaríamos os dois dormindo e acordando e se dando bom dia todos os dias, confortáveis no consolo de nos sentirmos confortáveis. Afinal, ambos sabemos que não é possível ser feliz, mas se pode estar bastante satisfeito.
E estaríamos muito, muito satisfeitos se de uma hora para outra você não tivesse começado a dormir cada vez mais tarde e eu a acordar cada vez mais cedo. Se as panelas, às vezes, mudassem de lugar. Se o tapete não mantivesse suas franjas penteadas e os cinzeiros não estivessem sempre limpos. Se o papel higiênico acabasse e faltasse sabonete. Se houvesse lixo a que se botar fora. Se alguém recebesse as cartas ou pagasse as contas. Se tivéssemos nos dado conta.
Teria dado certo Rafael – ah se teria – não preferíssemos simplesmente deixar de regar as plantas à piedade de lhes arrancar as raízes da terra à unha. Se meus cabelos ainda entupindo os ralos, se sua barba ainda grudando nos azulejos do chuveiro. Se inda houvesse os carros na garagem. Se mesmo com manobras desnecessárias, tivéssemos estacionado as palavras. Pecamos pela nossa displicência, Rafael, fomos displicentes com nós mesmos.
E com aquele gato persa que nunca batizamos.
Ouvi dizer que, belo dia, pulou a janela da sala e foi viver sabe-se lá onde. Que adorou ter a casa toda para si, mas não pode com a dor da fome. Tampouco com a magnitude da sua solidão uma vez ciente do espaço antes ocupado pelos corpos, e do não haver mais corpos.
Fiquei pensando se haveria, agora, o gato preferido dormir num cesto do tamanho do seu corpo…
E então, me comprei uma cama de solteiro, onde nada falta. E eu também não sobro.
No commentsFacebook de Katharina
Vejo as fotos de Katharina e meu coração se contrai. Ela tem um sorriso que eu não tenho e ele. Ela in a relationship. Eu sempre single. E todas aquelas tardes em que fumávamos maços inteiros de Mayfair mentolado e maldizíamos os amores de Platão para ela são, agora, uma Suíça ensolarada de verão enquanto para mim, uma São Paulo inerte de poluição e neblinas mornas.
Não foram raras as vezes que eu achei que Katharina era como eu. Entre almoços, passeios, cantorias e porres vexatórios, falávamos a língua de quem ama em sonho, falava ela dele, enquanto eu falava de você. Falávamos desses amores que não acontecem apesar de terem tudo para acontecer. Eu mostrava a ela suas mensagens, ela me contava coisas que a irmã dela deixava escapar. E a gente ia alimentando uma a ilusão da outra pela simples necessidade de acreditar que existe predestinação e que o bem amado,espera.
Trago em meu peito a grande culpa. Eu ouvia Katharina com descrença. Sorria para ela e apoiava, enquanto minha alma envenenada murmurava: coitada, ele não vem.
E assim foi, até que Fernando apareceu como em um conto de fada. E amou Katharina exatamente como ela havia sonhado ser amada. E um dia, os dois partiram. E os dois ficam lindos abraçados na fotografia, na fotografia estampada naquele site onde ela me deixou uma serie de mensagens nostálgicas e carinhosas. Onde ela me pergunta de você. Onde ela me pergunta de nós. Onde eu não sei responder. Onde digito e apago incessantemente as mesmas palavras.
Onde ela ainda vai me convidar para o casamento e lhe estender o convite.
E eu vou mentir para ela e para mim. E jurar por Deus que você ainda existe.
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