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	<title> &#187; Nomes</title>
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		<title>Miss Zippo</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Nov 2009 14:45:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autobiografia]]></category>
		<category><![CDATA[Confissões]]></category>
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		<description><![CDATA[É simples: pouco a pouco, eu me abandonei. E comigo, as velhas teimosias, os sonhos românticos que nunca passaram de suspiros entre um gole e outro. Entre um encontro e outro. De mim para os corpos sem sentido ocuparam minha cama sem deixar vestígios de sua passagem no colchão. Perdi o interesse pelas peles e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É simples: pouco a pouco, eu me abandonei. E comigo, as velhas teimosias, os sonhos românticos que nunca passaram de suspiros entre um gole e outro. Entre um encontro e outro. De mim para os corpos sem sentido ocuparam minha cama sem deixar vestígios de sua passagem no colchão. Perdi o interesse pelas peles e seus atritos. Na consciência da improbabilidade do amor, os corpos se foram tornando artigos descartáveis. Assim, todos eles foram um tanto como aquelas bonecas de papel dos tempos de criança: a brincadeira sem conseqüências de despir depois vestir e enfim destiná-los ao esquecimento no fundo de um armário úmido que um dia seria tomado pelo mofo.</p>
<p>Eu amava me apaixonar. Eu gostava de me apaixonar duzentas vezes pela mesma pessoa e ao mesmo tempo por outras duzentas. Isso me movia, me enchia de energia. Mas, de repente, sem nenhuma razão aparente, perdi o gosto. E foi isso que eu tentei explicar quando ele surpreendentemente ressurgiu com todo seu arsenal de ardis me chamando de Miss Zippo:</p>
<p>“Ah, Jay&#8230; os dias de Miss Zippo há muito se foram. É que as centelhas andam raras e eu já me desperdicei demais por aí com desgraça pouca. Aquela paixão que corria bolente nas minhas veias tornou-se um combustível escasso e como já não sou tão jovem, era urgente começar a economizá-lo. Sabe, quando acesa, não tem vento nem tempestade que me apague a chama – isso não mudou. Mas lhe devo dizer que já não é qualquer fagulha que me inflama&#8230;”</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2009, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Vinícius.</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Apr 2009 04:33:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<description><![CDATA[Vinícius tinha nome de poeta e comia poesia. Mas nunca cospia. Ficava ali digerindo os versos alheios e desvendando as mais variadas figuras de linguagem escondidas numa infinidade de rimas.  No fundo, Vinícius era uma espécie de boi lírico; ele ruminava, ruminava, ruminava, decorava o gosto dos versos e depois engolia sem a chance de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--[if gte mso 9]><xml> <w:WordDocument> <w:View>Normal</w:View> <w:Zoom>0</w:Zoom> <w:HyphenationZone>21</w:HyphenationZone> <w:Compatibility> <w:BreakWrappedTables /> <w:SnapToGridInCell /> <w:WrapTextWithPunct /> <w:UseAsianBreakRules /> </w:Compatibility> <w:BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4</w:BrowserLevel> </w:WordDocument> </xml><![endif]--></p>
<p><!--[if gte mso 10]><br />
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<p>E era só por isso que eu guardava no bolso sem ler todos os papeizinhos que ele me entregava por debaixo da mesa do refeitório durante o café da manhã: não queria, tomada de aflição, ver-me retificar seus versinhos de pé-quebrado e dar ao seu sentimento pernas mecânicas. A verdade é que era delicado ver aquele sentimento todo escorrer coxo pela esferográfica verde e se transformar num discurso atabalhoado, tedioso e pueril.</p>
<p>Aconteceu que um dia Vinícius não me passou nenhum versinho por debaixo da mesa. Em vez disso, ficou ali calado, respirando profundamente aquele ar viciado, empestado de manteiga e café fraco. Ficou ali me olhando uns longos minutos até que aproximando muito seus lábios de minha orelha esquerda, sussurrou:</p>
<p>-Melina, a tristeza não tem fim.</p>
<p>Então, desliguei-me do ir e vir das formigas no açucareiro e olhando bem fundo nos olhos segredei:</p>
<p>-Mas tem longas pausas.</p>
<p>E nesse dia, Vinícius compôs uma melodia belíssima que ninguém jamais conseguiu letrar.</p>
<p class="MsoNormal">
<p style='text-align:left'>&copy; 2009, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Ella</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Mar 2009 04:06:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu a venero pela sua força. Eu a julgo, porque me assemelho Infante na lida, errante na vida. Ella é comum diante do espelho. &#169; 2009, ana. All rights reserved.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu a venero<br />
pela sua força.<br />
Eu a julgo,<br />
porque me assemelho</p>
<p>Infante na lida,<br />
errante na vida.</p>
<p>Ella é comum<br />
diante do espelho.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2009, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Musa</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Nov 2008 05:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Nomes]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela é feliz. Ela lhe ama. Ela vem de trem. Vem sem bagagem, não traz tristezas. Seu nome é Dulce. E ela é um verso de amor. &#169; 2008, ana. All rights reserved.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela é feliz.<br />
Ela lhe ama.<br />
Ela vem de trem.</p>
<p>Vem sem bagagem,<br />
não traz tristezas.</p>
<p>Seu nome é Dulce.<br />
E ela é um verso de amor.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2008, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Doriana</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Oct 2008 17:23:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Nomes]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Doriana alongou-se elevando os braços, depois inclinou-se para frente com os joelhos bem esticados e colocou as mãos próximas aos pés. A grama estava úmida do orvalho e cheirava a chá, e isso fez com que ela sorrisse e catasse uma pedrinha do chão. A pedrinha , lançada num movimento de sua mão, quicou três [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Doriana  alongou-se elevando os braços, depois inclinou-se para frente com os joelhos bem esticados e colocou as mãos próximas aos pés. A grama estava úmida do orvalho e cheirava a chá, e isso fez com que ela sorrisse e catasse uma pedrinha do chão.</p>
<p>A pedrinha , lançada num movimento de sua mão, quicou três vezes no espelho d’ água do lago, serelepe como criança miúda. Doriana inventou que ela afundaria devagar pois era uma pedrinha muito delicada . E a delicadeza nunca deveria sucumbir à qualquer força do universo, nem mesmo à gravidade dos corpos.</p>
<p>De olhos fechados,  ela ia imaginando a pedrinha afundar como uma pena que plana displicentemente ao sabor do vento e o olhar extasiado dos peixes. Via as algas acariciando sua superfície, beijando sua pele clara polida pelos atritos da vida.</p>
<p>No pensamento da menina,  a pedrinha repousaria para sempre num colchão de musgo macio, bem quietinha no fundo do lago, imersa em beleza, em silêncio. Alheia a todas as questões chatíssimas do mundo.</p>
<p>Fazia muito calor, o ar se movia em rajadas frescas e alegres brincando com fiapos do meu cabelo. Um cachorro, que não era meu, brincava com o cordão dos meus sapatos e fazer-lhe uma festa acabou sendo um descuido sem precedentes.</p>
<p>Impotente, eu ainda tentei agarrar Doriana pela barra da saia e avisar que às vezes a vida é água turva, que às vezes a vida é água fria.</p>
<p>Como se houvesse jeito de segurar alguém que decide mergulhar.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2008, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Lauro</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 18:46:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Microconto]]></category>
		<category><![CDATA[Nomes]]></category>

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		<description><![CDATA[Sua presença era um souvenir de uma cidade bonita onde eu sei que nunca mais vou voltar. &#169; 2008, ana. All rights reserved.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sua presença era um souvenir de uma cidade bonita onde eu sei que nunca mais vou voltar.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2008, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Alikan</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jul 2008 18:23:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Nomes]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao vê-lo assim surpreendido, lembrei-me de um episódio que me aconteceu -ou talvez eu tenha só sonhado &#8211; em um dia muito chuvoso, numa tarde que era primavera, mas jamais se diria pois, do contrário, falava-se em neve, logo ali onde era raro o gelo: culpa de uma corrente quente que passava tão perto do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao vê-lo assim surpreendido, lembrei-me de um episódio que me aconteceu -ou talvez eu tenha só sonhado &#8211; em um dia muito chuvoso, numa tarde que era primavera, mas jamais se diria pois, do contrário, falava-se em neve, logo ali onde era raro o gelo: culpa de uma corrente quente que passava tão perto do litoral que era mesmo possível de se sentir seu hálito confortador beijar a face durante qualquer caminhada despretensiosa a beira-mar.</p>
<p>Tinha me coberto com casacos pesados e toucas e capuzes e enfrentava o vento do norte cheia de coragem, sem saber direito porque havia saído de casa em meio a intempérie e nem onde estava com a cabeça de não ter calçado um bom par de galochas. Ensopada e de pés congelados, sentei-me então no cais e fiquei procurando em vão as focas e as respostas quando ouvi um assobio conhecido.</p>
<p>Alikan, com as orelhas baixas, disse-me que estava de passagem. Que pensava estar na Irlanda. E eu lhe apontei a Irlanda do outro lado mas ele não podia ver, pois era muito densa a neblina. Ele se repetia: eu só vejo o mar.</p>
<p>Sentou-se então; o rabo alegre batendo compassado nas tábuas do cais apesar dos olhos tristes.</p>
<p>-Jura que eu não estou mesmo na Irlanda?</p>
<p>Sacudi negativamente a cabeça e ficamos num longo silêncio. E era só o zunido do vento, das ondas e das idéias.</p>
<p>E foi então que eu tomei coragem e falei:<br />
-Alikan, lhe devo dizer alguma coisa&#8230;não sei se você percebeu, mas você é de pelúcia.</p>
<p>E seu rabinho ensopado, parou. Não havia mais chuva, nem vento, o céu abriu e a Irlanda nunca me tinha parecido tão próxima. Levantou-se, chacoalhou-se todo. Sorriu.<br />
-Você tem certeza?<br />
Fiz que sim arqueando as sobrancelhas.<br />
-Mesmo?<br />
-Mesmo.<br />
-Então por que você não me abraça?</p>
<p>E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele já tinha se atirado no oceano e perdia-se a nado, no horizonte.</p>
<p>Eu?  Eu caminhava tranqüilamente pisoteando meus tênis de palmilhas empapadas. Disfarçando os meus olhos cheios d&#8217;água.</p>
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		<title>Senhorita Margot</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Sep 2007 05:49:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<description><![CDATA[Primeiro eram as botas em que se tropeçar bloqueando a porta e a meia calça se equilibrando em cima da televisão. Depois, pouco a pouco, um copo de refrigerante pelo meio, ainda gelado, o copo marcado de um batom escuro e um cream cracker onde se deu somente uma mordida interrompida por enjôos e flagelos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro eram as botas em que se tropeçar bloqueando a porta e a meia calça se equilibrando em cima da televisão. Depois, pouco a pouco, um copo de refrigerante pelo meio, ainda gelado, o copo marcado de um batom escuro e um cream cracker onde se deu somente uma mordida interrompida por enjôos e flagelos. Bijuterias dentro do cinzeiro, onde um cigarro queimou até o filtro e apagou. Uma lufada de suor concentrado e álcool.</p>
<p>A parede vermelha ainda sem quadros e um vinil de 78 rotações tocando em 33, canções de um cabaré imaginário onde ela era melindrosa, cantora e pianista. Onde ela fumava uma cigarrilha com lábios sugestivos e destruía corações e relações estáveis. Onde se pensava que ela dava enquanto, que tontos, ela só consumia ao seu bel prazer. Onde ela despia as tetas cantando com voz grave, depois se vestia e dizia não.</p>
<p>As chaves de casa, do carro. Sobre a pia, algodões pretos de olhos manchados de pranto e rímel. Um vidro de perfume no final, esmalte vermelho de secagem rápida, uma calcinha de algodão cor da pele gotejando na torneira do chuveiro. Shampoo para cabelos rebeldes, e sabonete de gengibre com vanilla. Toneladas de cabelos secos pelo chão atestando que aos poucos começa uma demolição.</p>
<p>O corpo embriagado de Margot sobre a cama, mais pálido, mais flácido, roncando baixinho pra provar que ela é humana. Uma pequena poça de saliva formando-se sob seus lábios que pendem abandonados sobre fronha, empestando o ambiente com um hálito agridoce e inundando os lençóis com existência.</p>
<p>Margot está muito cansada de ser o que ela é, sem ter escolha. Cansada de ter sempre que ter uma frase, um gesto, um argumento, os olhos vivazes. De ter sempre atitude. De despertar curiosidade, atração, tesão e medo.</p>
<p>O corpo nu de Margot, seus poros arrepiados e mamilos rijos, seus braços acolhendo o tronco um pouco de frio, outro tanto por instinto. Margot está sonhando o anti-sonho. Margot quer ser normal, andar de chinelos, esquecer de fazer as unhas, aprender a fazer bolo e ter um namorado meio feio com quem ela só faça sexo duas vezes por semana. Margot quer, às vezes, não saber as respostas. Quer ser beijada na testa. Margot quer ser protegida, mas ela, em vez de puxar o edredom, vai se encolhendo, encolhendo, defendendo o corpo com o próprio corpo tentando ignorar os pêlos eriçados pelo vento encanado da Avenida Paulista.</p>
<p>O arrepio da solidão que entra por uma fresta da janela, por debaixo das portas, e por um furinho na sua carapaça que leva direitinho na alma. A mesma alma que ela acredita que não tem, e por isso, nunca se preocupou em selar.</p>
<p>(publicado originalmente no <a href="http://www.livinrooom.com">Livinrooom</a> a convite da <a href="http://www.cronicascariocas.com/livia_santana.html">Lívia Santana</a>)</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2007, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Rafael e Beatriz.</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Aug 2007 05:14:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Nomes]]></category>

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		<description><![CDATA[Pecamos pela nossa displicência. Outrora, haveríamos nos diluído no dia-a-dia, em todos aqueles oks que dizemos sem sequer ter ouvido o que nos foi solicitado. Em todas aquelas tarefas executadas sem brilhantismo, porém com razoável eficiência. Fizesse, eu, a cama todos os dias do mesmo jeito; não largasse você restos de feijão nos pratos. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pecamos pela nossa displicência. Outrora, haveríamos nos diluído no dia-a-dia, em todos aqueles oks que dizemos sem sequer ter ouvido o que nos foi solicitado. Em todas aquelas tarefas executadas sem brilhantismo, porém com razoável eficiência. Fizesse, eu, a cama todos os dias do mesmo jeito; não largasse você restos de feijão nos pratos. Não tivesse, eu, trocado o perfume e você o pós-barba, continuaríamos os dois dormindo e acordando e nos dando bom dia todos os dias, confortáveis no consolo de nos sentirmos confortáveis. Afinal, ambos sabemos que se não é possível ser feliz, poderíamos, pelo menos, termos continuado bastante satisfeitos.</p>
<p>E estaríamos muito, muito satisfeitos, se de uma hora para outra você não tivesse começado a dormir cada vez mais tarde. E eu a acordar cada vez mais cedo. Se as panelas, às vezes, mudassem de lugar. Se o tapete não mantivesse suas franjas penteadas e os cinzeiros não estivessem sempre limpos. Se o papel higiênico acabasse e faltasse sabonete. Se houvesse lixo a que se botar fora. Se alguém recebesse as cartas ou pagasse as contas. Se tivéssemos nos dado conta.</p>
<p>Teria dado certo Rafael &#8211; ah se teria &#8211; não preferíssemos simplesmente deixar de regar as plantas à piedade de lhes arrancar as raízes da terra a unha. Se meus cabelos ainda entupindo os ralos, se sua barba sempre grudada nos azulejos do chuveiro. Se ainda houvesse os carros na garagem. Se mesmo com manobras desnecessárias, tivéssemos estacionado as palavras. Pecamos pela nossa displicência, Rafael, fomos displicentes com nós mesmos.</p>
<p>E com aquele gato persa que nunca batizamos.</p>
<p>Ouvi dizer que, belo dia, pulou a janela da sala e foi viver sabe-se lá onde. Que adorou ter a casa toda para si, mas não pode com a fome. Nem com a magnitude da sua solidão uma vez ciente do espaço antes ocupado pelos corpos. E do não haver mais corpos.</p>
<p>Fiquei pensando se haveria, agora, o gato, preferido dormir num cesto do tamanho do seu corpo&#8230;</p>
<p>Então, me comprei uma cama de solteiro, onde nada falta. E eu também não sobro.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2007 &#8211; 2011, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Facebook de Katharina</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jul 2007 19:06:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Confissões]]></category>
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		<description><![CDATA[Vejo as fotos de Katharina e meu coração se contrai. Ela tem um sorriso que eu não tenho e ele. Ela in a relationship. Eu sempre single. E todas aquelas tardes em que fumávamos maços inteiros de Mayfair mentolado e maldizíamos os amores de Platão para ela são, agora, uma Suíça ensolarada de verão enquanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vejo as fotos de Katharina e meu coração se contrai. Ela tem um sorriso que eu não tenho e ele. Ela in a relationship. Eu sempre single. E todas aquelas tardes em que fumávamos maços inteiros de Mayfair mentolado e maldizíamos os amores de Platão para ela são, agora, uma Suíça ensolarada de verão enquanto para mim, uma São Paulo inerte de poluição e neblinas mornas.</p>
<p>Não foram raras as vezes que eu achei que Katharina era como eu. Entre almoços, passeios, cantorias e porres vexatórios, falávamos a língua de quem ama em sonho, falava ela dele, enquanto eu falava de você. Falávamos desses amores que não acontecem apesar de terem tudo para acontecer. Eu mostrava a ela suas mensagens, ela me contava coisas que a irmã dela deixava escapar. E a gente ia alimentando uma a ilusão da outra pela simples necessidade de acreditar que existe predestinação e que o bem amado,espera.</p>
<p>Trago em meu peito a grande culpa. Eu ouvia Katharina com descrença. Sorria para ela e apoiava, enquanto minha alma envenenada murmurava: coitada, ele não vem.</p>
<p>E assim foi, até que Fernando apareceu como em um conto de fada. E amou Katharina exatamente como ela havia sonhado ser amada. E um dia, os dois partiram. E os dois ficam lindos abraçados na fotografia, na fotografia estampada naquele site onde ela me deixou uma serie de mensagens nostálgicas e carinhosas. Onde ela me pergunta de você. Onde ela me pergunta de nós. Onde eu não sei responder. Onde digito e apago incessantemente as mesmas palavras.</p>
<p>Onde ela ainda vai me convidar para o casamento e lhe estender o convite.</p>
<p>E eu vou mentir para ela e para mim. E jurar por Deus que você ainda existe.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2007, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Glasgow Nights &#8211; Stella</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jul 2007 01:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Desci do trem na estação central de Glasgow com um nó na garganta. Pela primeira vez eu entendia o que eles chamam de ter borboletas no estômago. O meu quase voava. E eu culpava o frio, aqueles menos sete graus, e nem inverno era ainda, mas era verão cá por dentro. Eu tremia, claro que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desci do trem na estação central de Glasgow com um nó na garganta. Pela primeira vez eu entendia o que eles chamam de ter borboletas no estômago. O meu quase voava. E eu culpava o frio, aqueles menos sete graus, e nem inverno era ainda, mas era verão cá por dentro. Eu tremia, claro que eu tremia. Claro que havia de tremer, como não? Eu ia encontrar com Stella. E talvez como no livro houvesse para nós, um final feliz, como deveria haver para todas as grandes esperanças do mundo. Talvez fosse agora&#8230;</p>
<p>Stella chegara de manhã e ligara de um telefone público no albergue da Union Street. Baby, estou aqui. Aqui não tinha significado naquele momento, eu não pude nem mesmo perguntar por alguns segundos, pois não havia voz, mas ela foi se explicando, marcou um encontro à noite, num pub de universitários na Sauchiehall Street. Escolha estranha para Stella, fosse talvez uma má indicação de algum estudante local.</p>
<p>Optei pela saída da Union Street com aquela esperança de um esbarrão no meio do caminho que pudesse nos levar a algum outro lugar. Pub universitário não combinava mesmo com Stella, não com a Stella depois de tantos anos de espera. Não comigo vendo Stella depois de tantos anos. Surpresas, eu sempre odiei surpresas. Tivesse me ligado, teria ido a Paisley buscá-la. Teria organizado um belo jantar na minha casa, lareira acesa, vinho bom. Mas não; não me lembrava dela ser assim impulsiva. Talvez estivesse com problemas. A idéia de Stella me procurar numa situação adversa me fazia sentir mais vivo. A gente sente o sangue nas veias quando tem a ilusão de significar algo na vida de alguém. Stella significava. Não havia outra mulher no Reino Unido, no mundo, que não tivesse sido Stella ao toque da minha mão.</p>
<p>Já estava na Bath Street quando me veio à mente a última imagem de Stella que eu tinha. Cabelos anelados e negros na altura dos ombros, olhos azuis, pele muito branca que corava nas bochechas ante qualquer comentário mais capcioso. Voz baixa, meio escura. Mãos pequenas, dedos finos. Baixava os óculos e fazia aquele olhar de reprovação. Lembro-me que falávamos de cinema, e de vinhos e das pequenas sofisticações que a vida atribulada nos vai fazendo esquecer. Lembro que ela me disse uma vez: “dinheiro de nada nos serve quando não nos pode comprar tempo”. Tinha razão&#8230; Eu queria contar à Stella que eu achei a fórmula para ter tempo e dinheiro suficientes para pequenas excentricidades. Tivesse ela me avisado que vinha para algum bom concerto de jazz. Mas Stella, que era brisa mansa, resolveu chegar feito um furacão.</p>
<p>Ela havia marcado num lugar chamado Babuska. Eu nunca havia estado lá. Eu caminhava pela Sauchiehall Street um tanto desolado. Havia algo de errado na aparição súbita de Stella. Eu caminhava e queria um Brandy, mas é proibido beber em lugares públicos. Fazia um frio danado. Eu tinha as orelhas descobertas, o que me deixara um bocado surdo. As mãos estocadas nos bolsos. Como eu queria um Brandy. Eu parecia pequeno, me encolhia e não era o clima, mas o medo. O medo de ver Stella.</p>
<p>Eu encontrara o tal do Babuska, não era nada que se apreciar. Esperei alguns minutos na porta, talvez ela já estivesse lá dentro&#8230; Foi quando ouvi ao longe meu nome soando&#8230; Uma voz indefectível&#8230;</p>
<p>Uma mulher desengonçada que corria em minha direção. Cabelos curtos vermelhos e unhas. Sobretudo para esconder a nudez a se mostrar no conforto do aquecimento, onde a falta de gosto e senso permite peitos desnudos, paetês e saias do comprimento de um cinto. Saltos. Pegou-me pela mão e me arrastou porta adentro. Pediu um Bourbon e beijou me a boca. Falou-me de Barcelona, Milão, Lisboa, Londres. Uma mulher que movia sem parar as mãos atabalhoadas e tinha esmalte descascado nas unhas. Ela foi a festas. Ela teve amantes. E as marcas estavam no seu rosto, no seu corpo, nos seus olhos, no seu gosto.</p>
<p>Ela falava e eu via como o mundo, como conhecer o mundo, transforma as pessoas. Ela falava e eu procurava as marcas do mundo em mim. Teria eu também essas rugas, essas queimaduras e cicatrizes? Seriam notáveis? Não, eu não podia acreditar-me contaminado pelo mundo, não pelo mesmo mal de mundo que tinha feito Stella, a minha Stella, apodrecer. Eu me sentia doente, tonto com o falatório e o rumor do pub. Stella já estava tonta de tanto álcool. Eu já estava doente de Stella, doente de mim.</p>
<p>Levantei vagarosamente com a intenção de ir ao banheiro. Precisava olhar-me no espelho. Precisava ver-me são. Mas de repente notei-me na Sauchiehall Street novamente, caminhando na chuva, enfrentando o típico vento frio escocês que faça você o que fizer lhe estupra as roupas e congela a alma.</p>
<p>O primeiro trem partia às seis. Eram ainda três e meia. O mundo em Glasgow pára as três e meia. E tudo que eu queria era que o mundo parasse. Que o mundo desgrudasse de mim. Que o mundo desgrudasse de Stella.</p>
<p>Voltei à Central Station pela mesma Union Street somente para assegurar-me que toda ida tem uma volta similar possível. A porta do albergue trancada. Bato. O recepcionista me atende mal humorado. Ela vai dormir na rua, ou com alguém em algum lugar. “May I leave a note to Miss Stella Miller?”</p>
<p>Há de se comprar um ticket para Paisley. De lá, um avião. Há de se comprar um ticket para casa e mergulhar no mar de casa para lavar o mundo de mim. Não sei bem se foi o mundo que corrompeu minha Stella ou se foi a minha infindável espera. Melhor ela tivesse ficado protegida no meu sonho, eu protegido na minha ignorância. Melhor. Stella era só mais uma puta entre tantas e eu mais um romântico entre milhares. Talvez o podre não fosse o ranço de mundo no corpo. Talvez fossem que as cores que os olhos pintam, de repente, desbotaram. Eu precisava de sol para quarar minha alma. O mesmo sol que manchara a pele de Stella.</p>
<p>Entrego o pedaço de papel ao rapaz marroquino. Ele tenta ler em vão. Escreve ele mesmo o número do quarto. Mal chegara e já era popular.</p>
<p>E ficaram ali minhas últimas palavras para ela. Era mesmo tempo de voltar.</p>
<p>Perdão, Stella. Mas, de repente, eu entendi.</p>
<p>(originalmente publicado na revista Cortante, do querido <a href="http://www.verbeat.org/blogs/flaviodiario/">Flávio</a>).</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2007, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Julio e Marta</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Aug 2006 03:37:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ficou olhando discretamente, a cabeça apoiada nas mãos pousadas sobre o travesseiro. O suor ainda cintilava na testa dela e quando acabou de amarrar os sapatos percebeu que ele tinha preparado o lado direito da cama para ela se deitar. Sorriu. - Já vai? Sacudiu a cabeça, de leve, positivamente. - Você é uma puta, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ficou olhando discretamente, a cabeça apoiada nas mãos pousadas sobre o travesseiro. O suor ainda cintilava na testa dela e quando acabou de amarrar os sapatos percebeu que ele tinha preparado o lado direito da cama para ela se deitar. Sorriu.</p>
<p>- Já vai?</p>
<p>Sacudiu a cabeça, de leve, positivamente.</p>
<p>- Você é uma puta, Martha&#8230;<br />
-Do pior tipo, puta apaixonada.</p>
<p>Ele não insistiu.</p>
<p>E assim preservaram a memória sem estragar tudo acordando lado a lado. Sem se dar a chance de procurar as palavras justas quando nem mesmo havia necessidade de palavras. Tudo já tinha sido dito pelo silencio. A interpretação há tempos já se tinha colocado muito acima do discurso.</p>
<p>Julio abriu a porta para Martha. Martha abraçou Julio apertado.</p>
<p>Sincronizaram um acender de cigarros e o primeiro trago.</p>
<p>Ambos sabiam perfeitamente que acabou.</p>
<p>Julio ia pensar e dormir. Martha ia chorar.</p>
<p>E aquelas seis semanas de incêndio seriam esquecidas completamente quando a fumaça, enfim, se dissipasse pelo ar caso tivessem tido a maior sorte de queimaduras leves que não lhes deixassem nenhuma cicatriz profunda.</p>
<p>Entretanto,sabe-se que, querendo ou não, toda paixão há que fustigar um tanto a alma para ser paixão.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2006, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Carta para Dodô</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Aug 2006 02:57:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<description><![CDATA[Dodô, Eu tenho que lhe segredar uma coisa. Eu escolho as palavras. Nada do que eu lhe escrevo é espontâneo. Nenhuma de declaração de amor foi natural. O processo não é complicado, pois o tempo cuidou de fazer-me aprimorar a técnica. Na verdade é bastante simples: eu vomito sentimentos banais no papel. Rimas pobres, palavras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dodô,</p>
<p>Eu tenho que lhe segredar uma coisa. Eu escolho as palavras. Nada do que eu lhe escrevo é espontâneo. Nenhuma de declaração de amor foi natural.</p>
<p>O processo não é complicado, pois o tempo cuidou de fazer-me aprimorar a técnica. Na verdade é bastante simples: eu vomito sentimentos banais no papel. Rimas pobres, palavras de baixo calão, sexualidades sem lirismo. Depois, eu lapido. Penso em cada uma delas e substituo por aquelas que podem lhe anuviar os olhos e sussurrar nos ouvidos.</p>
<p>Ah, Dodô, a poesia não é sincera. A poesia não diz o que quer dizer, mas o que se quer fazer ouvir. A poesia é falsa. A poesia é tola. Eu sou falsa e tolo é você.</p>
<p>A poesia lhe rouba de mim, pois a ela é que você quer bem. Eu sinto ciúme do meu verso. E sentir ciúme do meu verso é entender que a persona se sobrepôs definitivamente à pessoa. Talvez nunca lhe tenha ocorrido, mas quando você me diz que me ama eu entendo que você se apaixonou pelo meu eu-lírico. E quando eu lhe escrevo que eu lhe amo é o meu eu-lírico quem se declara.</p>
<p>Acontece, que eu, Marina, também lhe amo. E brado em olhares e suspiros que você não pode perceber, pois você precisa da certeza do amor. Satisfaço-lhe passando atestados em verbos e lacrimejo depois minhas sinceridades no meu travesseiro.</p>
<p>A palavra trabalhada, Dodô, é placebo.</p>
<p>Será que um dia você vai perceber que o amor é uma linguagem não-verbal?</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2006, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Camila não me deixa dormir na rede</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Dec 2004 02:10:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Nomes]]></category>

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		<description><![CDATA[Enfim era o nosso sonho realizado e tínhamos a varanda de frente para o mar. Engraçado como a gente pode sonhar com as mesmas coisas e ter sonhos tão diferentes. Eu acordo de manhã muito cedo e vejo o sol nascer, depois desço pelas escadas e evitando fazer barulho com minhas chinelas soltas no calcanhar. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enfim era o nosso sonho realizado e tínhamos a varanda de frente para o mar. Engraçado como a gente pode sonhar com as mesmas coisas e ter sonhos tão diferentes.</p>
<p>Eu acordo de manhã muito cedo e vejo o sol nascer, depois desço pelas escadas e evitando fazer barulho com minhas chinelas soltas no calcanhar. Guardo pra mim minha alegria matutina, não preciso despertar os vizinhos velhos com suas mazela de meio-dia. Atravesso a rua, faço barras, corro, mergulho no mar que não é limpo, mas ainda é mar. Volto para casa como um menininho novo e encontro Camila ainda dormindo muito profundamente. Preparo bananas com mel e aveia, depois lavo o prato. Enquanto isso, Camila sonha coisas. E eu tomo banho no banheiro de empregada para que o som do chuveiro não lhe carregue seus devaneios adormecidos de lantejoulas.</p>
<p>Não sei a que horas Camila acorda, mas deve ser lá pelas dez. Não sei que horas ela levanta, mas estou seguro que se lamenta dos sulcos profundos que os lençóis deixam na sua cara. Isso sem falar de outras marcas do tempo. Camila levanta descabelada e tonta, olha de soslaio pela varanda um sol que já está alto. Reclama do calor, fecha as cortinas e liga o ar condicionado. Ouve os recados na secretária eletrônica, se arruma com pressa, toma leite desnatado, calça saltos. Deixa um bilhete enfático para a empregada e desce de elevador. E a empregada nunca faz as comidas simples que eu gosto.</p>
<p>Eu trago meus amigos e sento na minha varanda com meu violão. Camila fica na sala com suas amigas, e bebe vinho enquanto bebemos água mineral. E quando todos vão embora eu armo a minha rede para olhar as estrelas. Camila vem de lençóis de seda e se deita. E resmunga quando eu ressono.</p>
<p>Camila não me deixa dormir na rede, por isso eu deito ao seu lado sem muita conversa, olho seus cachos invadindo meu travesseiro e ela a fingir que dorme. Giro para  ela minhas costas, ela se move.</p>
<p>E quando eu enfim durmo Camila se espalha toda nessa ansiedade de solteira que se revela nos estágios mais profundos do sono.</p>
<p>É, Camila não me deixa dormir na rede. Mas todos os dias ela me joga no chão.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2004, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Aparecida e Gabriel</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Oct 2004 17:05:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Caso nos demorássemos mais em nós mesmos, poderíamos ter do que reclamar, você de mim, eu de nós dois. Talvez do café frio, quiçá de algum silêncio comprometedor. Pode ser que nos percebêssemos mais flexíveis, compenetrados ou corriqueiros caso apenas sorríssemos com o canto da boca em vez de rir sempre tão alto e com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caso nos demorássemos mais em nós mesmos, poderíamos ter do que reclamar, você de mim, eu de nós dois. Talvez do café frio, quiçá de algum silêncio comprometedor. Pode ser que nos percebêssemos mais flexíveis, compenetrados ou corriqueiros caso apenas sorríssemos com o canto da boca em vez de rir sempre tão alto e com tantos dentes, se fossem as palavras murmúrios no lugar das palavras chulas . Talvez se não nos orgulhássemos tanto do nosso comportamento vulgar.</p>
<p>Nós somos sujos Gabriel, somos ratos, somos como uma peste que ronda os botequins inebriados. Somos a escória putrefata da boemia. E nem há ressaca nos importe quando eu amo seu samba, você a minha poesia, e a gente quer mais que o dia seguinte se foda e rodamos sem rumo batizando com nossas rimas e engulhos a alma da noite, as esquinas da vida.</p>
<p>Ah Gabriel, esse seu nome de anjo não lhe salva a alma que você já vendeu. Meu nome de santa também não redime os pecados meus. Então vamos embora tormento! Não cambaleia agora!</p>
<p>Levanta que a estrada é longa e o amanhã já amanheceu.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2004, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Nina</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Apr 2004 16:56:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O telefone tocou e por um acaso repousava na mão de dela, que estava sentada tediosamente com os cotovelos apoiados nos joelhos e observava um tanto absorta uma carreira de formigas que subiam pela parede. Verdade, a cor verde é calmante, concluiu antes de dizer alô. Precisava mesmo de paredes verdes ao ouvir a voz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O telefone tocou e por um acaso repousava na mão de dela, que estava sentada tediosamente com os cotovelos apoiados nos joelhos e observava um tanto absorta uma carreira de formigas que subiam pela parede. Verdade, a cor verde é calmante, concluiu antes de dizer alô.</p>
<p>Precisava mesmo de paredes verdes ao ouvir a voz que soava do outro lado da linha, pois para aquela voz havia amor e ódio e desejo e desprezo. Tremeu e esse foi seu único movimento até que ele terminasse de falar e tudo que ele pode ouvir de sua boca foram sins, nãos e ahans. Não havia muito mais a ser dito. Fica comigo esta noite.</p>
<p>Nina lembrou de uma canção antiga e cafona. Ela conhece bem os arrependimentos. Ainda permaneceu muda um instante mais por medo do eco inconveniente que denunciaria sua localização constrangedora. Olhou-se no espelho. Decidiu que merecia mais. Cortou um pedaço de papel higiênico e passou entre as pernas.</p>
<p>Desculpe, tenho um compromisso.</p>
<p>Apertou a descarga antes de desligar. E gargalhou.</p>
<p>Nina não é assim para qualquer um. O sangue que desce do ventre de Nina é muito vermelho.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2004, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Guilherme</title>
		<link>http://www.anamangeon.com/blog/2004/03/01/guilherme/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=guilherme</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2004 03:38:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autobiografia]]></category>
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		<description><![CDATA[Lembro-me que quando me perguntaram &#8220;Você sabe que Guilherme não é legal com as mulheres, né?&#8221; eu dei um sorrisinho de quem não se importa e respondi que sabia. Mas na verdade eu só sabia que não era legal comigo, porque é ele quem não liga muito. Ele está acima disso e isso acontece pois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lembro-me que quando me perguntaram &#8220;Você sabe que Guilherme não é legal com as mulheres, né?&#8221; eu dei um sorrisinho de quem não se importa e respondi que sabia. Mas na verdade eu só sabia que não era legal comigo, porque é ele quem não liga muito. Ele está acima disso e isso acontece pois venho por anos amando Guilherme no escuro sem sabê-lo, portanto, sem ser capaz de compreender. O amor ignorante ama o que no final das contas?</p>
<p>Estar com Guilherme sempre me foi como tentar nadar num lago muito raso, pois parecia que meu muito fôlego me impelindo a mergulhar fazia com que ele se sentisse as pernas curtas. Até que belo dia eu percebi que era ele o espelho d&#8217;água. Propositadamente turva. E que quando eu o admirava era o meu reflexo que eu olhava. E me veio como uma pontada dorida o pensamento: podemos até nos ver o reflexo na água, mas a água não é capaz de nos enxergar. Acho que Guilherme nunca me viu.</p>
<p>Eu sinto saudade de Guilherme, de sonhar Guilherme, de desejar Guilherme acima de todas as coisas. Eu sinto falta do desespero que me provocava seu olhar blasé, das suas atenções inesperadas, das nossas poucas porém significantes semelhanças e das nossas incomensuráveis diferenças. Eu sinto falta de esperar com esperança.</p>
<p>Por onde anda Guilherme? Nesse conto, em algum poema, nas horas apertadas do relógio. Por aí. Pelo ar.</p>
<p>Guilherme é feito de éter.</p>
<p>Guilherme nunca existiu.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2004, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Giovanni</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Oct 2003 03:16:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autobiografia]]></category>
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		<description><![CDATA[Quem o conheceu ainda hoje me pergunta o que é que eu fazia com ele. Eu sei, é difícil entender. Muita gente diz que ele era só um menino estúpido numa embalagem bonita. E era quase sempre. Giovanni falava alto e com as mãos e me explicava que parecia ríspido muitas vezes, mas não queria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quem o conheceu ainda hoje me pergunta o que é que eu fazia com ele. Eu sei, é difícil entender. Muita gente diz que ele era só um menino estúpido numa embalagem bonita. E era quase sempre.</p>
<p>Giovanni falava alto e com as mãos e me explicava que parecia ríspido muitas vezes, mas não queria ser. Culpava o sotaque. A verdade é que ele era ríspido sim, mas não era nada que se eu levantasse minha voz um pouco não mudasse de tom. Giovanni era grande, bruto, mas quando eu dizia cala a boca ele se sentava como uma criança de castigo e pedia desculpas com as palmas das mãos unidas como as de um menino que reza sua penitência.</p>
<p>Todos vinham me falar das minhas qualidades antagônicas aos defeitos dele. Eu nunca respondi. O lado bom era segredo nosso.</p>
<p>Eu me limitava a sorrir porque entre nossas quatro paredes, na nossa cama de solteiro de lençóis azuis, Giovanni era doce, nunca desviava os olhos dos meus olhos, nunca dormia antes que eu adormecesse. Ele era sim um inferno da porta pra fora, mas ali, sozinho comigo, eu era o seu bem mais importante, meio mulher, meio mãe. Ele era o vigor que eu já não tinha, eu era a paz que ele procurava.</p>
<p>Quando me irritava demais e eu me escondia no meu quarto, esmurrava aos berros minha porta até que eu abrisse. E antes que eu o mandasse embora me apertava contra seu corpo como se eu tivesse mesmo para onde fugir. E eu, que já não era quase nada, que era mesmo um farrapo de gente, ficava ali sufocada, esperando que eu afrouxasse os braços e me deixasse respirar. Depois ele me comprava o perdão com cerejas frescas.</p>
<p>Ninguém entendia a razão de eu continuar me deitando todas as noites com Giovanni porque ninguém sabia quantas eu acordava com ele chorando me olhando dormir e quando eu perguntava o motivo ele dizia que era porque me amava.</p>
<p>A obsessão dele dizia tudo que a minha loucura precisava ouvir.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2003, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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		<title>Manoela</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2003 03:13:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<description><![CDATA[Manoela acordou atrasada, talvez tenha desligado o despertador sem sentir. Levantou esfregando os olhos, colocou os óculos mas não conseguiu enxergar a hora no relógio. Olhou por cima das lentes e viu que era meio dia. Foi para frente do espelho e aí entendeu que agora exergava sem os óculos melhor que com eles. Se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Manoela acordou atrasada, talvez tenha desligado o despertador sem sentir. Levantou esfregando os olhos, colocou os óculos mas não conseguiu enxergar a hora no relógio. Olhou por cima das lentes e viu que era meio dia. Foi para frente do espelho e aí entendeu que agora exergava sem os óculos melhor que com eles. Se olhava com atenção. Olhava tudo em volta com atenção e tudo tinha uma cor de por do sol na primavera, tudo tinha adquirido um tom meio laranja, meio magenta. Antes tudo tendia um pouco para o azul. Manoela enfim não precisava mais daqueles óculos, e por isso se animou em pintar um pouco os olhos antes de sair.</p>
<p>Achava curioso que as pessoas agora sorrissem sem propósito e sentia uma vontade incontrolável de chamar todas pelo primeiro nome, de dar bom dia. Começou a manter a casa sempre cheia de flores. Incomodava o eterno fechar das cortinas. Manoela, aprendeu a comer luz.</p>
<p>Nunca mais acordou atrasada porque não precisava mais do relógio para despertar. O corpo sentia a aurora. E ela tomava longos banhos de banheira, vestia jeans, tênis e camiseta e ia para a faculdade de filosofia. Depois, almoçava um sanduíche e estudava francês segundas e quartas, alemão terças e quintas. Às sextas tomava cerveja ou ia o cinema. Aos sábados procurava uma cachoeira e a noite dançava até que fosse domingo. Nos domingos, Manoela acordava tarde e ia para cozinha preparar seu prato preferido, depois estudava. Se os dias tivessem mais horas, Manoela daria conta de todas elas. O tempo tinha se tornado seu aliado, ela queria fazer, ser, muitas coisas.</p>
<p>Dona Mirian estranha a menina não passar mais longas horas trancada no quarto. Não entende aquelas flores na janela, as revoadas de borboletas. Dona Mirian acha que Manoela está usando drogas. Dona Mirian não sabe que Manoela tem preservativos na carteira e que não vai mais a igreja não porque não tem mais tempo, mas porque não tem mais fé. Dona Mirian quer levar Manoela ao psicólogo. Manoela não diz, mas acha que Dona Mirian precisa de terapia.</p>
<p>Dona Mirian conversa todas as noites com seu Irineu na cozinha. E Manoela todas as noites se esconde atrás a porta para ouvir. Seu Irineu ri de Dona Mirian, ele acha que Manoela arrumou um namorado. Ele acha que Manoela está apaixonada &#8211; seu Irineu não sente ciúmes &#8211; e torce para que um dial ela faça <em> paella</em> e traga o seu amor para almoçar em casa.</p>
<p>Manoela sacode a cabeça sorrindo. Seu Irineu conhece muito bem a sua nova paixão. Faz 20 anos ela circula incólume pelos corredores daquela enorme casa azul de poucas janelas e grades no portão.</p>
<p style='text-align:left'>&copy; 2003, <a href='http://www.anamangeon.com/blog'>ana</a>. All rights reserved. </p>
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