Archive for the 'Nomes' Category

Alikan

Ao vê-lo assim surpreendido, lembrei-me de um episódio que me aconteceu -ou talvez eu tenha só sonhado – em um dia muito chuvoso, numa tarde que era primavera, mas jamais se diria pois, do contrário, falava-se em neve, logo ali onde era raro o gelo: culpa de uma corrente quente que passava tão perto do litoral que era mesmo possível de se sentir seu hálito confortador beijar a face durante qualquer caminhada despretensiosa a beira-mar.

Tinha me coberto com casacos pesados e toucas e capuzes e enfrentava o vento do norte cheia de coragem, sem saber direito porque havia saído de casa em meio a intempérie e nem onde estava com a cabeça de não ter calçado um bom par de galochas. Ensopada e de pés congelados, sentei-me então no cais e fiquei procurando em vão as focas e as respostas quando ouvi um assobio conhecido.

Alikan, com as orelhas baixas, disse-me que estava de passagem. Que pensava estar na Irlanda. E eu lhe apontei a Irlanda do outro lado mas ele não podia ver, pois era muito densa a neblina. Ele se repetia: eu só vejo o mar.

Sentou-se então; o rabo alegre batendo compassado nas tábuas do cais apesar dos olhos tristes.

-Jura que eu não estou mesmo na Irlanda?

Sacudi negativamente a cabeça e ficamos num longo silêncio. E era só o zunido do vento, das ondas e das idéias.

E foi então que eu tomei coragem e falei:
-Alikan, lhe devo dizer alguma coisa…não sei se você percebeu, mas você é de pelúcia.

E seu rabinho ensopado, parou. Não havia mais chuva, nem vento, o céu abriu e a Irlanda nunca me tinha parecido tão próxima. Levantou-se, chacoalhou-se todo. Sorriu.
-Você tem certeza?
Fiz que sim arqueando as sobrancelhas.
-Mesmo?
-Mesmo.
-Então por que você não me abraça?

E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele já tinha se atirado no oceano e perdia-se a nado, no horizonte.

Eu?  Eu caminhava tranqüilamente pisoteando meus tênis de palmilhas empapadas. Disfarçando os meus olhos cheios d’água.

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Senhorita Margot

Primeiro eram as botas em que se tropeçar bloqueando a porta e a meia calça se equilibrando em cima da televisão. Depois, pouco a pouco, um copo de refrigerante pelo meio, ainda gelado, o copo marcado de um batom escuro e um cream cracker onde se deu somente uma mordida interrompida por enjôos e flagelos. Bijuterias dentro do cinzeiro, onde um cigarro queimou até o filtro e apagou. Uma lufada de suor concentrado e álcool.

A parede vermelha ainda sem quadros e um vinil de 78 rotações tocando em 33, canções de um cabaré imaginário onde ela era melindrosa, cantora e pianista. Onde ela fumava uma cigarrilha com lábios sugestivos e destruía corações e relações estáveis. Onde se pensava que ela dava enquanto, que tontos, ela só consumia ao seu bel prazer. Onde ela despia as tetas cantando com voz grave, depois se vestia e dizia não.

As chaves de casa, do carro. Sobre a pia, algodões pretos de olhos manchados de pranto e rímel. Um vidro de perfume no final, esmalte vermelho de secagem rápida, uma calcinha de algodão cor da pele gotejando na torneira do chuveiro. Shampoo para cabelos rebeldes, e sabonete de gengibre com vanilla. Toneladas de cabelos secos pelo chão atestando que aos poucos começa uma demolição.

O corpo embriagado de Margot sobre a cama, mais pálido, mais flácido, roncando baixinho pra provar que ela é humana. Uma pequena poça de saliva formando-se sob seus lábios que pendem abandonados sobre fronha, empestando o ambiente com um hálito agridoce e inundando os lençóis com existência.

Margot está muito cansada de ser o que ela é, sem ter escolha. Cansada de ter sempre que ter uma frase, um gesto, um argumento, os olhos vivazes. De ter sempre atitude. De despertar curiosidade, atração, tesão e medo.

O corpo nu de Margot, seus poros arrepiados e mamilos rijos, seus braços acolhendo o tronco um pouco de frio, outro tanto por instinto. Margot está sonhando o anti-sonho. Margot quer ser normal, andar de chinelos, esquecer de fazer as unhas, aprender a fazer bolo e ter um namorado meio feio com quem ela só faça sexo duas vezes por semana. Margot quer, às vezes, não saber as respostas. Quer ser beijada na testa. Margot quer ser protegida, mas ela, em vez de puxar o edredom, vai se encolhendo, encolhendo, defendendo o corpo com o próprio corpo tentando ignorar os pêlos eriçados pelo vento encanado da Avenida Paulista.

O arrepio da solidão que entra por uma fresta da janela, por debaixo das portas, e por um furinho na sua carapaça que leva direitinho na alma. A mesma alma que ela acredita que não tem, e por isso, nunca se preocupou em selar.

(publicado originalmente no Livinrooom a convite da Lívia Santana)

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Rafael e Beatriz.

Pecamos pela nossa displicência. Outrora, haveríamos nos diluído no dia-a-dia, em todos aqueles oks que dizemos sem sequer ter ouvido o que nos foi solicitado. Em todas aquelas tarefas executadas sem brilhantismo, porém com razoável eficiência. Fizesse, eu, a cama todos os dias do mesmo jeito; não largasse você restos de feijão nos pratos. Não tivesse, eu, trocado o perfume e você o pós-barba, continuaríamos os dois dormindo e acordando e nos dando bom dia todos os dias, confortáveis no consolo de nos sentirmos confortáveis. Afinal, ambos sabemos que se não é possível ser feliz, poderíamos, pelo menos, termos continuado bastante satisfeitos.

E estaríamos muito, muito satisfeitos, se de uma hora para outra você não tivesse começado a dormir cada vez mais tarde. E eu a acordar cada vez mais cedo. Se as panelas, às vezes, mudassem de lugar. Se o tapete não mantivesse suas franjas penteadas e os cinzeiros não estivessem sempre limpos. Se o papel higiênico acabasse e faltasse sabonete. Se houvesse lixo a que se botar fora. Se alguém recebesse as cartas ou pagasse as contas. Se tivéssemos nos dado conta.

Teria dado certo Rafael – ah se teria – não preferíssemos simplesmente deixar de regar as plantas à piedade de lhes arrancar as raízes da terra a unha. Se meus cabelos ainda entupindo os ralos, se sua barba sempre grudada nos azulejos do chuveiro. Se ainda houvesse os carros na garagem. Se mesmo com manobras desnecessárias, tivéssemos estacionado as palavras. Pecamos pela nossa displicência, Rafael, fomos displicentes com nós mesmos.

E com aquele gato persa que nunca batizamos.

Ouvi dizer que, belo dia, pulou a janela da sala e foi viver sabe-se lá onde. Que adorou ter a casa toda para si, mas não pode com a fome. Nem com a magnitude da sua solidão uma vez ciente do espaço antes ocupado pelos corpos. E do não haver mais corpos.

Fiquei pensando se haveria, agora, o gato, preferido dormir num cesto do tamanho do seu corpo…

Então, me comprei uma cama de solteiro, onde nada falta. E eu também não sobro.

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Facebook de Katharina

Vejo as fotos de Katharina e meu coração se contrai. Ela tem um sorriso que eu não tenho e ele. Ela in a relationship. Eu sempre single. E todas aquelas tardes em que fumávamos maços inteiros de Mayfair mentolado e maldizíamos os amores de Platão para ela são, agora, uma Suíça ensolarada de verão enquanto para mim, uma São Paulo inerte de poluição e neblinas mornas.

Não foram raras as vezes que eu achei que Katharina era como eu. Entre almoços, passeios, cantorias e porres vexatórios, falávamos a língua de quem ama em sonho, falava ela dele, enquanto eu falava de você. Falávamos desses amores que não acontecem apesar de terem tudo para acontecer. Eu mostrava a ela suas mensagens, ela me contava coisas que a irmã dela deixava escapar. E a gente ia alimentando uma a ilusão da outra pela simples necessidade de acreditar que existe predestinação e que o bem amado,espera.

Trago em meu peito a grande culpa. Eu ouvia Katharina com descrença. Sorria para ela e apoiava, enquanto minha alma envenenada murmurava: coitada, ele não vem.

E assim foi, até que Fernando apareceu como em um conto de fada. E amou Katharina exatamente como ela havia sonhado ser amada. E um dia, os dois partiram. E os dois ficam lindos abraçados na fotografia, na fotografia estampada naquele site onde ela me deixou uma serie de mensagens nostálgicas e carinhosas. Onde ela me pergunta de você. Onde ela me pergunta de nós. Onde eu não sei responder. Onde digito e apago incessantemente as mesmas palavras.

Onde ela ainda vai me convidar para o casamento e lhe estender o convite.

E eu vou mentir para ela e para mim. E jurar por Deus que você ainda existe.

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Glasgow Nights – Stella

Desci do trem na estação central de Glasgow com um nó na garganta. Pela primeira vez eu entendia o que eles chamam de ter borboletas no estômago. O meu quase voava. E eu culpava o frio, aqueles menos sete graus, e nem inverno era ainda, mas era verão cá por dentro. Eu tremia, claro que eu tremia. Claro que havia de tremer, como não? Eu ia encontrar com Stella. E talvez como no livro houvesse para nós, um final feliz, como deveria haver para todas as grandes esperanças do mundo. Talvez fosse agora…

Stella chegara de manhã e ligara de um telefone público no albergue da Union Street. Baby, estou aqui. Aqui não tinha significado naquele momento, eu não pude nem mesmo perguntar por alguns segundos, pois não havia voz, mas ela foi se explicando, marcou um encontro à noite, num pub de universitários na Sauchiehall Street. Escolha estranha para Stella, fosse talvez uma má indicação de algum estudante local.

Optei pela saída da Union Street com aquela esperança de um esbarrão no meio do caminho que pudesse nos levar a algum outro lugar. Pub universitário não combinava mesmo com Stella, não com a Stella depois de tantos anos de espera. Não comigo vendo Stella depois de tantos anos. Surpresas, eu sempre odiei surpresas. Tivesse me ligado, teria ido a Paisley buscá-la. Teria organizado um belo jantar na minha casa, lareira acesa, vinho bom. Mas não; não me lembrava dela ser assim impulsiva. Talvez estivesse com problemas. A idéia de Stella me procurar numa situação adversa me fazia sentir mais vivo. A gente sente o sangue nas veias quando tem a ilusão de significar algo na vida de alguém. Stella significava. Não havia outra mulher no Reino Unido, no mundo, que não tivesse sido Stella ao toque da minha mão.

Já estava na Bath Street quando me veio à mente a última imagem de Stella que eu tinha. Cabelos anelados e negros na altura dos ombros, olhos azuis, pele muito branca que corava nas bochechas ante qualquer comentário mais capcioso. Voz baixa, meio escura. Mãos pequenas, dedos finos. Baixava os óculos e fazia aquele olhar de reprovação. Lembro-me que falávamos de cinema, e de vinhos e das pequenas sofisticações que a vida atribulada nos vai fazendo esquecer. Lembro que ela me disse uma vez: “dinheiro de nada nos serve quando não nos pode comprar tempo”. Tinha razão… Eu queria contar à Stella que eu achei a fórmula para ter tempo e dinheiro suficientes para pequenas excentricidades. Tivesse ela me avisado que vinha para algum bom concerto de jazz. Mas Stella, que era brisa mansa, resolveu chegar feito um furacão.

Ela havia marcado num lugar chamado Babuska. Eu nunca havia estado lá. Eu caminhava pela Sauchiehall Street um tanto desolado. Havia algo de errado na aparição súbita de Stella. Eu caminhava e queria um Brandy, mas é proibido beber em lugares públicos. Fazia um frio danado. Eu tinha as orelhas descobertas, o que me deixara um bocado surdo. As mãos estocadas nos bolsos. Como eu queria um Brandy. Eu parecia pequeno, me encolhia e não era o clima, mas o medo. O medo de ver Stella.

Eu encontrara o tal do Babuska, não era nada que se apreciar. Esperei alguns minutos na porta, talvez ela já estivesse lá dentro… Foi quando ouvi ao longe meu nome soando… Uma voz indefectível…

Uma mulher desengonçada que corria em minha direção. Cabelos curtos vermelhos e unhas. Sobretudo para esconder a nudez a se mostrar no conforto do aquecimento, onde a falta de gosto e senso permite peitos desnudos, paetês e saias do comprimento de um cinto. Saltos. Pegou-me pela mão e me arrastou porta adentro. Pediu um Bourbon e beijou me a boca. Falou-me de Barcelona, Milão, Lisboa, Londres. Uma mulher que movia sem parar as mãos atabalhoadas e tinha esmalte descascado nas unhas. Ela foi a festas. Ela teve amantes. E as marcas estavam no seu rosto, no seu corpo, nos seus olhos, no seu gosto.

Ela falava e eu via como o mundo, como conhecer o mundo, transforma as pessoas. Ela falava e eu procurava as marcas do mundo em mim. Teria eu também essas rugas, essas queimaduras e cicatrizes? Seriam notáveis? Não, eu não podia acreditar-me contaminado pelo mundo, não pelo mesmo mal de mundo que tinha feito Stella, a minha Stella, apodrecer. Eu me sentia doente, tonto com o falatório e o rumor do pub. Stella já estava tonta de tanto álcool. Eu já estava doente de Stella, doente de mim.

Levantei vagarosamente com a intenção de ir ao banheiro. Precisava olhar-me no espelho. Precisava ver-me são. Mas de repente notei-me na Sauchiehall Street novamente, caminhando na chuva, enfrentando o típico vento frio escocês que faça você o que fizer lhe estupra as roupas e congela a alma.

O primeiro trem partia às seis. Eram ainda três e meia. O mundo em Glasgow pára as três e meia. E tudo que eu queria era que o mundo parasse. Que o mundo desgrudasse de mim. Que o mundo desgrudasse de Stella.

Voltei à Central Station pela mesma Union Street somente para assegurar-me que toda ida tem uma volta similar possível. A porta do albergue trancada. Bato. O recepcionista me atende mal humorado. Ela vai dormir na rua, ou com alguém em algum lugar. “May I leave a note to Miss Stella Miller?”

Há de se comprar um ticket para Paisley. De lá, um avião. Há de se comprar um ticket para casa e mergulhar no mar de casa para lavar o mundo de mim. Não sei bem se foi o mundo que corrompeu minha Stella ou se foi a minha infindável espera. Melhor ela tivesse ficado protegida no meu sonho, eu protegido na minha ignorância. Melhor. Stella era só mais uma puta entre tantas e eu mais um romântico entre milhares. Talvez o podre não fosse o ranço de mundo no corpo. Talvez fossem que as cores que os olhos pintam, de repente, desbotaram. Eu precisava de sol para quarar minha alma. O mesmo sol que manchara a pele de Stella.

Entrego o pedaço de papel ao rapaz marroquino. Ele tenta ler em vão. Escreve ele mesmo o número do quarto. Mal chegara e já era popular.

E ficaram ali minhas últimas palavras para ela. Era mesmo tempo de voltar.

Perdão, Stella. Mas, de repente, eu entendi.

(originalmente publicado na revista Cortante, do querido Flávio).

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Julio e Marta

Ficou olhando discretamente, a cabeça apoiada nas mãos pousadas sobre o travesseiro. O suor ainda cintilava na testa dela e quando acabou de amarrar os sapatos percebeu que ele tinha preparado o lado direito da cama para ela se deitar. Sorriu.

- Já vai?

Sacudiu a cabeça, de leve, positivamente.

- Você é uma puta, Martha…
-Do pior tipo, puta apaixonada.

Ele não insistiu.

E assim preservaram a memória sem estragar tudo acordando lado a lado. Sem se dar a chance de procurar as palavras justas quando nem mesmo havia necessidade de palavras. Tudo já tinha sido dito pelo silencio. A interpretação há tempos já se tinha colocado muito acima do discurso.

Julio abriu a porta para Martha. Martha abraçou Julio apertado.

Sincronizaram um acender de cigarros e o primeiro trago.

Ambos sabiam perfeitamente que acabou.

Julio ia pensar e dormir. Martha ia chorar.

E aquelas seis semanas de incêndio seriam esquecidas completamente quando a fumaça, enfim, se dissipasse pelo ar caso tivessem tido a maior sorte de queimaduras leves que não lhes deixassem nenhuma cicatriz profunda.

Entretanto,sabe-se que, querendo ou não, toda paixão há que fustigar um tanto a alma para ser paixão.

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